O futuro, qualquer futuro, sempre começa

Cândido Grzybowski
Sociólogo, presidente do Ibase

Estamos diante de eleições locais para escolha de prefeito(a)s e vereadore(a)s. Trata-se de um rito institucional, indispensável para a democracia. Porém, sempre é uma oportunidade para renovar, mudar, alargar, aprofundar, tanto em agendas democráticas como em atores políticos que vão nos representar nos próximos quatro anos. Mas, para uma democracia ecossocial substantiva, isto é pouco ou quase nada. Somos nós mesmos, como coletivos de cidadania, que estamos diante de desafios para nos reinventar e exercer nosso poder instituinte e constituinte de governos efetivos de nossos territórios. Sobretudo naqueles que são nossos endereços, nosso lugar de vida, de identidade coletiva, de relacionamento cotidiano, de solidariedade e cuidado mútuo, de vivência cultural. Os territórios em que moramos são nossos bens comuns mais abrangentes e, a seu modo, mais vitais, mesmo quando nem temos consciência disto ou, até, damos as costas, não assumindo a responsabilidade coletiva por ele. Pior, esperando que nossos representantes eleitos deem conta do recado.

Podemos não mudar nada no imediato, mas nunca é tarde começar. Só a cidadania territorial, em última análise, pode tudo mudar. Estamos afim disso? Preparado(a)s? Ou já abdicamos do direito de exercer e fortalecer a soberania cidadã sobre os nossos territórios?

Estamos – como sempre aliás – em um momento, a seu modo, único. Uma conjuntura que nossas gerações nunca vivenciaram, nem mesmo no longo período da ditadura militar. Isto para os mais velhos. Em primeiro lugar estamos em plena pandemia da COVID-19, com infectados e mortos que se contam em milhões. Penso que é difícil encontrar um cidadão em nosso Brasil que não tenha sofrido com alguém muito próximo ou conhecido que  já morreu devido à pandemia, ou ainda pior, devido à negligência governamental, apesar do incrível e heroico esforço e cuidado de nossos profissionais de saúde. A pandemia nos fez, em intensidades muito diferenciadas, experimentar o viver em isolamento físico por longos períodos e em mergulhar em reflexões sobre a vida e a morte, a família, o cuidado mútuo, a solidariedade coletiva, a importância estratégica de quem é profissional de serviços essenciais ao viver, a centralidade dos bens comuns, o absurdo de uma economia comandada pela busca do lucro individual e acumulação, mesmo em detrimento das necessidades e do coletivo, o enorme fosso que nos separa dos governantes e representantes, mais preocupados com sua carreira política e bolso do que com a cidadania. Mesmo para quem não quis ou não quer ver, as desigualdades de condições de cidadania e das segregações raciais, de gênero e territoriais, se apresentaram como bofetadas na cara de todo mundo. Fomos reapresentados para os nossos próprios vizinhos, comunidades, territórios locais, países. O mundo até veio nos povoar no dia a dia, com as ameaças comuns planetárias, com a centralidade que ocupam as redes digitais em quase todo mundo.

Mas tem mais. O contexto não pode ser entendido sem levar em conta o esgarçamento político e institucional, do nacional ao local, do mundial às diferentes regiões do mundo. Enfim, um planeta girando, com sempre, mas com os humanos perdidos quanto ao seu destino comum, suas convicções, religiões, dogmas e ideologias. Tudo meio confuso e angustiante. Nós, aqui no Brasil, protagonizamos um dos polos contraditórios a mover o mundo no momento: o amplo espectro de iniciativas e governos autoritários, fascistas até, com Bolsonaro como presidente, com os donos de gado e gente que o apoiam, seus fanáticos seguidore(a)s e seus cúmplices da cúpula militar, policial e miliciana. Claro que o mundo não se resume a este polo, mas nos cabe viver aqui, sob a influência política direta dele, ainda mais avassalado ao governo de Trump sem nos consultar, na boa análise de José L.Fiori.

Uma terceira e incontornável dimensão qualificadora da conjuntura é a grande crise econômica em que estamos mergulhados. A maioria da população em idade econômica ativa desempregada, desiludida ou precarizada supera em muito a parcela ocupada. Estamos sob uma espécie de “domínio” absoluto de uma agenda neoliberal destrutiva de direitos e regulações das relações de trabalho, tudo em nome do mercado e ajuste fiscal. Mais de 60 milhões estão pendurados no auxílio emergencial decrescente do governo e a fome ronda como fantasma as suas vidas presentes e futuras. Tornamo-nos um país que depende de suas exportações “coloniais” de commodities do extrativismo mineral e do agronegócio, com renúncia a um projeto de economia autônoma e voltada às nossas necessidades mais essenciais.

A isto tudo se soma a profunda crise ecossocial. E é nos nossos territórios que ela se manifesta com seu enorme poder destrutivo, negador de direitos e promotor de injustiças com a natureza e a cidadania local. Vivemos uma espécie de descontrole de queimadas especialmente nos biomas da Amazônia, Pantanal e Cerrados. Mas os fogos avançam em praticamente todos os biomas, pois diariamente são registrados incêndios na Caatinga, Mata Atlântica e Pampas. Estamos pegando fogo. A seca e a onda de calor ajudam. Mas não dá para dissociar as queimadas da tal intenção ministerial de aproveitar o momento para “passar a boiada” da desregulação ambiental. Territórios de áreas protegidas estão sendo entregues ao predador processo de colonização e privatização por garimpeiros e grileiros. Sofrem os povos locais, sofremos todos nós, sofre o planeta.

Mas isto não é tudo. É também nos territórios locais que a desigualdade vira segregação, periferia, violência visível, medo e ameaça de morte vivida diariamente, que o não acesso a saneamento fica escancarado, que o tráfico e a milícia têm nome, que a falta de escola e o acesso à saúde viram drama concreto, que a mobilidade se exprime como sacrifício diário e não direito, que o caciquismo político impõe silêncio, discriminação e exclusão. Até quando vamos aceitar ser tratados assim em nossos territórios?

É neste contexto complexo que ocorrem as eleições locais e estamos desafiados a exercer a soberania cidadã sobre territórios que são nossa casa, nosso lugar, nossa identidade. Estamos diante de uma enorme diversidade de situações de territórios de cidadania, de grandes metrópoles a pequenos municípios rurais, de cidades grandes, médias e pequenas, de polos regionais a povoados e seu entorno. Mas todos partem do que somos como cidadania com liberdade e direitos iguais, responsáveis pela gestão da integridade do quinhão de território coletivo ocupado e o que ele oferece generosamente à vida.

Precisamos resgatar nossa identidade social e cultural com os territórios locais, alargar nosso olhar e percepção sobre o que temos e que podemos gerir como bem comum a serviço de toda a cidadania. Isto implica em nos unir e conversar, compartilhar análises, preocupações, desejos e imaginários. Não dá para esperar algo de onde pouco ou nada pode vir. A institucionalidade política e partidária esgarçada não pode ser nosso parâmetro de ação e futuro no momento. Precisamos valorizar nossos círculos de relação imediata como espaços possíveis de criar correntes de pensamento e cidadania capazes de definir e propor agendas aos candidatos que buscam nosso voto. Sim, não podemos renunciar a exercer nossa cidadania, demonstrar autonomia e determinação. Só nós podemos fazer diferença.

A tarefa é árdua e bastante desafiadora, dado o contexto e o curto espaço de tempo. Mas temos que começar. Já estamos redescobrindo vizinhos e formas de nos solidarizar ficando em casa e inventando novas formas de nos manifestar e comunicar, com gestos, panelaços, canto e música. O futuro, qualquer futuro, sempre começa. Não há caminhos previamente definidos, mas começar hoje a construí-los, com determinação, firmeza de princípios democráticos ecossociais e imaginação criadora compartilhada é a única maneira de descobrir aonde podemos chegar coletivamente e que soberania vamos exercer sobre os nossos territórios de vida.

Rio, 01/10/2020