A disputa de hegemonia é uma tarefa política a partir do cotidiano vivido

Cândido Grzybowski
Sociólogo, presidente do Ibase

“O futuro não é um lugar para onde vamos, mas um que estamos criando. Os caminhos para ele não se encontram, mas são feitos; e a atividade de fazê-los mudam ambos, o fazedor e o destino”.[1]

Inspiro-me nesta afirmação de Peter Ellyard, físico australiano, para a minha análise crítica do momento histórico e de como estamos avaliando e nos posicionando na conjuntura brasileira, diante dos desafios que temos com uma perspectiva democrática ecossocial como possibilidade.  Faço-o como analista social e um ativista cidadão radical, atento ao que se passa no seio da sociedade civil, sem viseira institucional e nem reivindicando alguma representação política.

É próprio das conjunturas políticas serem voláteis. Porém, a análise de conjunturas é condição do fazer política e, portanto, algo que se impõe no dia a dia. No entanto, conjunturas só são inteligíveis com olhar para além delas e em relação com a disputa de hegemonia política e cultural de imaginários, valores e propostas de outro amanhã. Também é fundamental analisar os sujeitos coletivos portadores das lutas e os blocos históricos de forças que se constituem ou não, capazes de moldar um horizonte estratégico do possível. Reafirmo aqui que minha referência teórica e metodológica são a escrita de Antônio Gramsci, desde o cárcere fascista de Mussolini, mas num lugar e num tempo histórico novo e único, como é viver no Brasil de 2020.

Deste meu refúgio, devido ao isolamento necessário, tenho acompanhado muitas análises que circulam nas redes, participado de algumas lives, sem grande entusiasmo, e lido bastante. Mas o que me move e me dá vida é a chama e a angústia de ativista. Gostaria de estar muito mais ativo, mesmo que seja nas redes sociais por internet. Mas mesmo reconhecendo a sua importância, devo admitir que sou apenas um migrante com limitado domínio da linguagem digital. Assim, faço algo bem abaixo da paixão cidadã que carrego. Mas faço.

O que mais me chama a atenção na maioria das análises a que tenho acesso é como o “ocasional”, o movimento do dia a dia da luta política, o jogo institucional e sua cobertura midiática contaminam as análises. Assim, ao invés de analisar, apenas registram acontecimentos como algo observado, mas não pensado, como se dados e fatos falassem por si mesmos, sem os decomporem e recomporem como algo contraditório em sua essência, qualificado pelo método investigativo, decifrando o seu lugar e sentido no todo complexo da realidade histórica em movimento. Assim, acabam sendo registros que não evidenciam o movimento mais de fundo, o que se passa nas entranhas da sociedade, da política e da economia mas se limitam a registrar os sinais mais aparentes e difusos. Não que a gente deva desprezar o que ocorre à luz do dia, a cada dia. Afinal, o melhor de tudo é um dia seguir o outro e nunca ser igual na sua essência.O problema é não ver além disso. Aqui estou me referindo em particular às análises da esquerda do espectro político, pois as da direita são contaminadas pelo seu poder e suas justificativas e as de centro simplesmente nada revelam, além de seu esforço “neutro” de não tomar posição que toda luta política exige. Aliás, as análises da direita a gente precisa ver, mesmo se dão ânsia de vômito. Afinal, os “blocos de direita” são os grandes adversários a derrotar – não matar, como fazem com o nosso lado – em prol da democracia, da cidadania, dos direitos na igualdade do que somos, afirmando nossa diversidade também humana, compartindo a vida entre todas e todos, todas as formas de vida, e o bem comum planetário.

Mas, como me considero do bloco de “esquerda cidadã”, reconheço que temos bons analistas e muitas análises consistentes. O que quero destacar aqui é o fato que muitas, senão a maioria delas pecam por não conseguir vislumbrar alguma perspectiva de mudança, por menor que seja, como caminho e possibilidade para a cidadania se engajar. Não vou nominar autores aqui, porque os respeito, mas lamento a sua falta de ousadia em pensar alternativas, por menores que sejam ou aparentemente inexistentes, mas que podem ser criadas. Afinal, o que nos move como esquerda é que a história não acabou, está sempre por ser feita. Aliás, como as ciências naturais nos alertam, tudo é um fazer-se e, ainda mais importante, em associação mais do que pelo darwinismo que domina o pensamento da ciência motora da civilização capitalista, inspirada em Bacon e no racionalismo de Descartes.

Não vou me alongar nisto. Só lembro que é incontornável reconhecer a hegemonia do liberalismo extremado que impõe suas regras e modos de ser no mundo da globalização e do domínio quase absoluto das grandes corporações econômicas e financeiras. Seu poder de moldar a humanidade e o planeta aos menos de 1%, gerando exclusões e desigualdades sociais insuportáveis e uma destruição ecossocial imprevisível em suas consequências devastadoras da integridade do Planeta e da vida, nunca pode estar fora do radar da mais singela análise de conjuntura.

Fixados estes pontos, voltemos ao nosso cotidiano e seus desafios no aqui e agora. Uma pergunta pode esclarecer tudo que quero pontuar: será que uma mudança positiva de avaliação do governo Bolsonaro nas recentes pesquisas de opinião sinaliza uma real mudança no processo de disputa política? Dizem algo sobre hoje e, sobretudo, o amanhã ainda por ser feito? Ou apenas são o que são, uma fotografia de um dado momento? Por que os analistas de conjuntura dão tanta atenção a pesquisas de opinião, quando opiniões são divulgadas e até estrategicamente difundidas pelos mais diferentes meios, ao sabor da própria luta e do poder e acesso a meios de informação de seus contendores? Opiniões são também realidade social, política e cultural, mas não toda a realidade. Há sempre um enorme indefinido no dia a dia de qualquer realidade social e para boas análises é fundamental decompor e analisar o indefinido para entender o definido, como facetas da mesma realidade. Lembro aqui as recentes explosões de manifestações antirracistas nos USA e irradiadas pelo mundo todo, em plena pandemia e crise econômica, algo imprevisível dias antes, mas com impacto tal que pode alterar a correlação de forças no coração do império… a quem o nosso capitão de segunda se subordina vergonhosamente!

Se há algo a destacar, que paira como um ponto obscuro nas análises pela esquerda da nossa conjuntura, é a ausência do por que não nos renovamos como “bloco histórico”. Todas as análises ficam na constatação do pequeno jogo político partidário institucional e de personalidades que lideram o “saco” de siglas da esquerda, com o evidente domínio do PT e o Lula. Aliás, com razão, todas as análises destacam que daí só pode sair a derrota. Apesar da longa e profunda deterioração da nossa democracia, hoje de baixíssima intensidade, ficamos dando mais atenção para o que pode parir a nossa institucionalidade desfigurada por falta de transformação democrática substantiva nas últimas décadas de pós-ditadura do que prestar atenção ao “emergente” na sociedade brasileira. Olhar e entender o Congresso Nacional, o Executivo e o Poder Judiciário, com suas iniciativas, alianças, explosões, corrupções e abafamentos é necessário, mas insuficiente. Participar de eleições e avaliar resultados é, também, muito importante. Mas o fundamental é olhar para o chão da vida, para os territórios de cidadania e como se viram as pessoas, vivenciam as múltiplas contradições e expressam suas identidades ecossociais, suas demandas e sonhos, como se organizam e se defendem em meio aos desafios e sofrimentos. O que isto nos diz da conjuntura e suas possibilidades é o que nunca pode estar ausente. É daí que pode surgir o novo transformador.

Não tenho dúvidas em afirmar que nossa grande questão estratégica é forjar um novo e potente bloco histórico capaz de disputar hegemonia democrática ecossocial pelos seus participantes diversos e sobretudo pelo que podem trazer de imaginários, valores e propostas. Uma prioridade nas análises é olhar para os “sinais” potentes que vem dos movimentos e lutas recentes e suas propostas, alguns com mais história e organização, mas todos importantes para uma agenda de cidadania capaz de incidência e reversão do processo destrutivo que vivemos. A “trégua” do isolamento não pode nos impedir de buscar os sinais do que se passa nas sofridas periferias urbanas e rurais, nos movimentos indígenas, dos povos da floresta, trabalhadores rurais, agricultores familiares, sem terra, dos sem teto e favelados, dos precarizados, dos grandes movimentos feministas e movimentos negros contra o patriarcalismo e o racismo estruturais. Também em plena pandemia redescobrimos os comuns fundamentais como saúde, educação, ciência e cultura. A lista é longa. Mas o mais importante é a sua conformação e potencial territorial local, num verdadeiro mosaico de cidadania em construção e renovação.

É daí que poderemos visualizar pontos estratégicos para uma avaliação mais consistente do que pode acontecer, mas, sobretudo, do que podemos e precisamos fazer, mudando a nós mesmos e moldando o nosso futuro. Mais do que lamentar o quanto nossos partidos de esquerda estão perdendo capacidade para produzir outro futuro coletivo, precisamos nos engajar em análises das possibilidades do vivido no cotidiano das cidadanias em seus territórios e como podemos nos inspirar nelas e apoiá-las para forjar potentes processos de transformação democrática ecossocial.

Rio, 01/09/2020

[1] Peter Ellyard, apud David Bollier & Silke Helfrichs (eds). The Wealth of the Commons. A World Beyond Market & State. Amherst (MA): Levellers Press, 2012, p.340. (tradução livre)