Augusto Gazir
do Ibase


Crédito: Valter Campanato/ABr

O jornalista Fernando Molica escreveu no site de O Dia nesta quarta (19/10) o artigo “A grande farra das ONGs de fachada”. Começa assim o texto:
“A sigla ONG, que define as organizações não-governamentais, começou a ser falada por aqui lá pelo fim dos anos 80 do século passado, quando a sociedade, saída de uma ditadura, procurava novas formas de representação e de atuação. Naquele momento, foi tentadora a ideia de que organizações sociais privadas pudessem assumir funções públicas. (…) O Estado, assolado por denúncias de corrupção, era visto com desconfiança: nada melhor do que repassar tarefas e recursos para grupos honestos e bem intencionados”.
Na sequência do texto, Molica chega a citar o Ibase como uma entidade “séria” surgida naquele momento.
O escrito de Molica é motivado pelas recentes denúncias de corrupção no Ministério dos Esportes, envolvendo repasse de recursos para ONGs. Comenta Molica: “Não demorou muito para os velhos larápios descobrissem que ONGs também poderiam ser bem utilizadas para o mal. E começou a rolar a festa”.
Às vezes, pelo seu modus operandi ou mesmo pelos alvos pré-estabelecidos da sua cobertura, é difícil para a imprensa, principalmente a diária, durante o acompanhamento de casos como esse do Ministério dos Esportes, fugir das generalizações, quase nunca benéficas. Nesse sentido, o artigo de Molica tem o grande mérito de sinalizar que há ONGs e ONGs, recuperar um pouco a história desse termo que passou a classificar entidades muito distintas.
O Ibase, por exemplo, e outras organizações como a Fase são ONGs desde antes de existirem ONGs. Na virada dos anos 1970 para 80, durante a redemocratização, elas passaram a fazer um trabalho de mobilização social, que, anos depois, chancelado o termo, seria identificado como uma ação de ONG. Como cita Molica, a Eco-92 e o seu Fórum Global (de organizações da sociedade civil) seriam um marco para a afirmação das ONGs como uma categoria.
Diferentemente do que Molica sugere, os recursos que financiavam naquela época entidades como o Ibase e a Fase, para ficar nos exemplos já citados, não eram estatais, mas de instituições de cooperação internacionais, muitas ligadas a igrejas.
(Hoje quase não há mais o financiamento da cooperação internacional. Essas organizações passaram a priorizar outros países e outras regiões. Isso tem resultado em crise financeira para essas ONGs da primeira leva, entre elas o Ibase, e na adoção da lógica de investimento por projeto, e não na instituição como um todo. Essas entidades têm muito discutido sobre alternativas para a sustentabilidade não só financeira, mas política. Sobre a crise dessas ONGs, convém ler o artigo de Jorge Durão na última edição da revista Democracia Viva.)
Não só as organizações não-governamentais históricas, vamos dizer assim, são “sérias”, para usar o adjetivo de Molica. Entidades mais novas, como o Observatório de Favelas, no Rio de Janeiro, desenvolvem projetos exemplares e se empenham na luta por igualdade e direitos humanos. Enfiar todas as ONGs, as “sérias” e as de “fachada” no mesmo saco de gatos é gol contra a democracia brasileira. Fernando Molica marcou um tento a favor.

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