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Encontro Nacional do FBSSAN defende comida como patrimônio cultural

Por Gilka Resende, do FBSSAN
O 7º Encontro Nacional do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN) ocorrerá em Porto Alegre, entre os dias 4 e 6 de junho. Com o tema “Que alimentos (não) estamos comendo?”, o objetivo será debater os alimentos como patrimônios culturais, refletindo sobre diferentes perspectivas: produção, processamento, abastecimento e consumo. A secretaria-executiva do Fórum é formada pela ONG Fase e pelo Ibase, que possuem longa trajetória no debate da segurança alimentar no país.
De acordo com Vanessa Schottz, da Secretaria Executiva do FBSSAN, o evento reunirá cerca de 130 pessoas de diferentes campos de conhecimento – Saúde, Nutrição, Direitos Humanos, Agroecologia, Reforma Agrária, Direito das Mulheres, Educação Popular, Indígena, dentre outros – para fazer uma leitura crítica do atual sistema alimentar. Para isso, encontros e seminários regionais ocorreram nos meses de abril e maio. Essa dinâmica foi importante, ressalta Vanessa, para reunir propostas que reflitam as realidades de cada estado.
Ela lembra que a questão alimentar não está restrita ao papel biológico da manutenção da vida, tendo relação direta com as dinâmicas econômica, social e ambiental.“Vivenciamos o domínio das grandes corporações do ramo alimentício. Então, durante o Encontro, buscaremos identificar novos temas e questões que precisam entrar na agenda política quando o assunto é alimentação”, explicou.
Crise alimentar ou sistema alimentar em crise?
Essa questão dá título à primeira mesa de debates do Encontro. Além de analisar os impactos de um modelo de agricultura que concentra terras e tem como base o uso de venenos, o agronegócio, Vanessa afirma que será tema o papel do Estado na garantia do Direito Humano à Alimentação.
Outro painel vai abordar o abastecimento alimentar relacionado à promoção da saúde, à preservação ambiental e ao valor dos mercados institucionais como políticas públicas.“Hoje vivemos a especialização da produção, ou seja, cada local volta seu cultivo, muitas vezes, para apenas um alimento. Isso tem a ver com a competitividade dos mercados e vai totalmente contra a diversificação dos alimentos, tão importante para a soberania e a segurança alimentar de cada país”, garantiu Vanessa.
A programação conta, ainda, com um terceiro painel. Este colocará em questão o próprio conceito de alimento. Em tempos do uso indiscriminado de agrotóxicos e de artificialização dos alimentos, o desafio será provocar reflexões, por exemplo, sobre o sentido das palavras “qualidade” e “saudável”. O Brasil é campeão mundial no uso de venenos agrícolas desde 2008, segundo a Campanha contra os Agrotóxicos e pela Vida. No país, até mesmo a tradicional combinação “arroz e feijão” já se encontra ameaçada pela transgenia.
Alimento como patrimônio imaterial
Regina Miranda, nutricionista do Fórum Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável (Fesans/RS), ressalta que, mais que discutir o alimento como patrimônio imaterial, os organizadores do Encontro também tiveram o cuidado de guardar na prática uma coerência com a proposta. “Nosso cardápio terá comidas de influência indígena, negra e portuguesa. Também vamos ter as culinárias alemã e italiana, fortes no Sul do país”, contou.
As especificidades alimentares foram consideradas. Haverá alimentos para pessoas que não podem comer glúten, açúcar ou lactose. Para aquelas que não comem carne, serão servidos nutritivos pratos vegetarianos ou veganos. A elaboração do cardápio, relata Regina, foi fruto do trabalho coletivo de nutricionistas que integram a comissão organizadora local. Já as sacolas ecológicas, que serão distribuídas aos participantes, foram confeccionadas pelo grupo de economia solidária Cáritas Paróquia Nossa Senhora da Piedade, da cidade gaúcha de Novo Hamburgo.
Além disso, os alimentos do Encontro serão agroecológicos. Eles foram adquiridos na Loja da Reforma Agrária, que fica no Mercado Público Central de Porto Alegre. “Sem agrotóxico, outros químicos ou sementes transgênicas. Acreditamos que a agroecologia é o modo adequado de produção, já que recupera, promove e mantem o equilíbrio com a natureza. Parte do princípio que os seres humanos têm o direito de se alimentar adequadamente, e nem por isso precisam pagar caro”, afirma Regina, que também integra a Emater/RS.
Além de painéis e de uma plenária, a programação do 7º Encontro Nacional do FBSSAN prevê oficinas sobre o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan); a agricultura urbana; produção artesanal e familiar de alimentos; a regulação da publicidade infantil; dentre outras. E, na tentativa de estabelecer diálogos com o poder público e ampliar os debates à população de Porto Alegre, a Roda de Conversa “Patrimônio Alimentar e Resistência Cultural: dimensões estratégicas de luta pela comida” foi marcada para acontecer no próximo dia 4, às 18h30, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

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