Uma análise do Fórum Social Mundial

Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em janeiro 2003. Arquivo Ibase

A rede GTI – Great Transition Initiative está promovendo, ao longo do mês de outubro, um debate sobre o Fórum Social Mundial, iniciado em 2001, no Brasil, e ainda presente em muitas articulações mundo afora. O presidente do Conselho de Governança do Ibase, Cândido Grzybowski, foi um dos primeiros ativistas brasileiros a engajar-se nesse processo de construção de “outro mundo possível”. Leia, a seguir, sua contribuição para o debate promovido pela GTI.

Engajei-me no processo do Fórum Social Mundial (FSM) desde o início de 2000, quando representantes de oito entidades e movimentos sociais brasileiros – depois denominado Comitê Organizador – começamos a nos reunir para criar as condições do seu nascimento em Porto Alegre, Brasil, em fins de janeiro de 2001, nos mesmos dias do World Economic Forum, de Davos. Como diretor na época, representei o Ibase no Comitê e levei esta organização de cidadania ativa, criada no começo dos anos 80 por exilados de retorno ao Brasil após a anistia política, a uma ampla participação e facilitação do processo FSM.

Tenho uma vasta produção escrita de minhas análises e reflexões, de intervenções em eventos no Brasil e mais de 50 países, de dados das pesquisas sobre o perfil dos participantes nos eventos mundiais da primeira década do século XXI. No momento, tendo deixado a direção do Ibase, estou tentando realizar um antigo projeto de extrair o essencial deste meu engajamento como analista e ativista, de antes, durante o FSM, no após ele (para mim). Em termos preliminares, defini o projeto como “Insurgências e Resistências de Cidadania no Contexto da Globalização: balanço crítico de pesquisas, escritos e ativismo”. Penso que devo isso à cidadania planetária – que está no centro de minhas preocupações. Afinal, as circunstâncias históricas, combinadas com meu engajamento, me fizeram cidadão do mundo mais do que brasileiro.

Em relação ao FSM tenho dois momentos: a) engajamento profundo nos eventos e processo de 2000 a 2010: b) posição crítica, afastamento progressivo, até um envolvimento casual a partir de então. Revisando meus escritos, concluí que minha melhor contribuição para o debate na GTI poderia ser o que está resumido em um texto que escrevi e apresentei no evento do Fórum Social Mundial Temático de 10 anos, em Porto Alegre, sob o emblemático título “Para além do Fórum Social Mundial”, publicado por IPS. Para mim, ele é a marca divisória dos dois momentos acima e, por isto mesmo, emblemático de minha própria reflexão. De 2010 a 2013, quando realizamos o FSM em Dakar, Senegal (2011), o FSM Temático em Porto Alegre (2012) em preparação da Rio+20 e o FSM em Tunis I (2013), do qual nem participei, tentei usar minha influência e propostas no sentido de mudar a metodologia do processo FSM, um das questões cruciais na minha análise. Foi também o momento que me engajei mais profundamente em novas iniciativas. Destaco aqui a conferência sobre novos paradigmas, no Ibase, em 2012, para qual escrevi o texto básico “Caminhos e descaminhos para a Biocivilização”. Para mim, aí se dá uma marca de novo engajamento, já me aproximando de tudo que tem a ver com a Great Transition Initiative e a sua rede de debate.

Lendo meu texto de 2010 com a percepção atual, destaco passagens e acrescento algumas precisões. Esta é a minha contribuição ao oportuno debate que o GTI propicia e que Roberto Savio, amigo pessoal, provoca.

O FSM se propôs a ser um espaço aberto que, sem negar a marca de origem contestadora do neoliberalismo, fosse uma espécie de recarregador de baterias da cidadania ativa, agora necessariamente de dimensões planetárias, pois é dela que depende a solução das contradições deste capitalismo levado ao seu extremo. O FSM, sem dúvida, deu uma fundamental contribuição para a emergência de uma cultura cidadã em escala mundial. Hoje ainda é um processo que segue seu próprio curso, apropriado por organizações de cidadania ativa, movimentos sociais e redes em diferentes partes do mundo. Nos seus primeiros anos, ele inspirou a construção de uma inteligência política coletiva sobre os problemas, desafios e possibilidades das lutas que empreendemos, cada qual a seu modo, no lugar em que nos encontramos no Planeta, mas que as circunstâncias nos tornam interdependentes, obrigados a compartir um mesmo mundo para dele fazer “outro mundo”. Para a nossa grande diversidade de identidades e culturas, a nossa pluralidade de visões e perspectivas, todas legítimas mas muitas vezes negadas, o FSM nos ofereceu um espaço aberto – uma espécie de usina para nova cultura política – para que nos reconhecêssemos iguais como humanidade e parte do mesmo e único sistema planetário para compartir entre todas e todos.

Não pretendo fazer aqui a história do FSM. Deixo a história para a história. Mas mudou muito o contexto cultural, político e econômico do mundo entre 2001 e a situação atual. As múltiplas e articuladas crises recentes são expressões das contradições e limites a que o capitalismo globalizado submete a humanidade e a sustentabilidade da própria vida no Planeta. Um “outro mundo possível” continua uma urgência e uma necessidade inadiável. Por isto, em 2010, quando escrevi o texto, me propus a pensar para além do FSM, reflexão que considero ainda pertinente. Não propus uma mudança do FSM em si, pois pensava que ele deveria continuar a tarefa inspiradora que foi a sua marca. Os encontros do FSM alimentavam o sonho e a esperança para muitos, mundo afora. E o mundo era e é continua sendo enorme para as dimensões reais que o processo de realizações do FSM tem conseguido. Muita semente precisa ser espalhada por diferentes territórios de nosso Planeta e fazer ressurgir a vontade de mudança. Pensei que o FSM poderia seguir o seu curso com sua capacidade mobilizadora, especialmente cativando as jovens gerações. Pensava que ninguém seguraria tal “onda de cidadania”.  Afirmei que o FSM poderia mudar muito. O via como um patrimônio da humanidade e que ela necessitava de um espaço aberto como o FSM para se repensar. Foi com esta visão que fiz as ponderações a seguir, agrupadas em três conjuntos.

I. O  FSM como inspiração e como limite

  • A contribuição mais evidente do FSM foi reacender uma força galvanizadora ao se contrapor a Davos e simplesmente afirmar que “outro mundo é possível”. Isto se deu ao deslocar o foco quase exclusivo no Estado, no mercado, na economia e ao apelar para a capacidade de ação transformadora dos múltiplos e diversos sujeitos coletivos, organizados em entidades, movimentos, redes, coalizões e alianças, que resistem, formulam propostas concretas e vão à luta por sua concretização. Num certo sentido, não era o FSM que inspirava, ele simplesmente foi um convite a uma reflexão compartilhada de experiências e saberes que se desenvolvem na prática, nas mais diversas situações, para, com abertura ao mundo, potencializar a própria ação, segundo as possibilidades de cada sujeito e em cada contexto. Na minha visão, o FSM criava bases de uma nova cultura política de transformação exatamente por estabelecer como um imperativo o diálogo planetário horizontal, sem protagonismos, racismos ou patriarcalismos, diálogo intra e inter-sujeitos coletivos, uns e umas reconhecendo os outros e as outras igualmente como sujeitos.
  • A nova cultura política não é uma invenção do FSM, mas ele foi um grande propulsor e indutor dela. Pelo seu caráter de espaço aberto à diversidade e pluralidade – como definido na Carta de Princípios – o FSM tem conseguido se tornar uma referência de encontros e trocas, sem hierarquias ou prioridades. No seu interior se forjaram legítimos consensos e dissensos (na verdade, outros consensos), extraindo assim da diversidade social e cultural, dos encontros e desencontros, e da pluralidade política a energia que o manteve como referência de uma nova cultura política de caráter planetário na primeira década do século XXI.
  • É forçoso reconhecer que, se bem é uma nova cultura política que esteve presente no FSM, ela foi apenas algo emergente, em construção. Nós todos e todas trazíamos ao FSM nossas estruturas mentais, valores e práticas, com todas as suas contradições. Começando pelo mais simples: confundimos diversidade com cada qual fazer o que queria, mesmo que fosse uma simples atividade para os seus pares, dificultando aglutinações, fusões e buscas coletivas, razão de ser do espaço FSM. Na verdade, nos iludimos do tamanho da tarefa que tínhamos pela frente. Nosso modo de pensar e agir de esquerda no seio do capitalismo ainda vinha e vem carregado por determinismos conceituais e políticos que priorizam, hierarquizam e protagonizam os sujeitos, o que no FSM muitas vezes se manifestava na ocupação do território e na disposição de atividades. Apesar da massiva presença de organizações e movimentos feministas, o machismo latente nas relações não dava às mulheres a devida relevância nos diálogos e trocas. Língua e diversidade cultural são patrimônios e riquezas a preservar, mas não soubemos lidar com o problema da tradução, apesar das tecnologias de informação e comunicação ao nosso alcance. Isso talvez porque está na tradução, no sentido que Boaventura Souza Santos dá a ela, o básico para aceitar e reconhecer os outros e as outras como detentores de saberes tão ou mais importantes que os nossos, em diálogo com os quais, como dizia Paulo Freire, poderemos juntos criar um novo saber, sobre nós mesmos, a sociedade, o mundo. Enfim, sem ser exaustivo, assinalo estes problemas só para acentuar o caráter ainda incipiente da nova cultura política que o FSM se propunha promover.
  • Um aspecto, que considero o grande e, talvez maior, legado do FSM, é o resgate e a valorização da política como a arena por excelência da construção de outro mundo e da ação cidadã como força transformadora. Num mundo capitalista cada vez mais dominado por grandes corporações de negócios, cada vez mais privatizado, mais mercantilizado, mais cínico e violento, de um consumismo desenfreado, destruidor do patrimônio comum da vida, criador de exclusões e acentuada desigualdade social, o FSM ressignificou o público e a política, e trouxe ao centro os princípios e os valores éticos para pensar a natureza, a vida, a economia e o poder.
  • Em síntese, considero três os pontos fortes do FSM como inspiração: 1) reacender a esperança e recolocar a história no seu lugar, como produção humana e não determinação metafísica; 2) por em questão os determinismos e protagonismos próprios da cultura de esquerda; 3) valorizar a energia da diversidade de sujeitos coletivos. Mas aí surgem os limites. Não dá para ignorar que o modo de acontecer do FSM como espaço aberto, centrado em eventos como sua grande realização, é o que foi: um processo de eventos que apenas reforçou consciências e vontades para um novo fazer. Contudo, ainda não foi o fazer de outro mundo. Foi apenas um passo, um começo fundamental, um abrir de portas. O FSM, no tempo que surgiu, foi uma condição necessária mas insuficiente do novo, no meu modo de ver. Para surgirem forças transformadoras, em minha visão, seria e é preciso fazer um caminho para além do FSM, não mais como Fórum e sim como invenção de sujeitos que acordam entre si ações concretas de incidência que julgarem adequadas nas diferentes situações e conjunturas, sobre relações, estruturas e processos de poder em crise, mas ainda muito vivos e dominadores. Os desafios se vislumbravam e ecoavam no FSM. Seu enfrentamento, porém, exigia uma nova criatividade política e cultural. Aí reside o dilema: como espaço o FSM se mostrou indispensável. Mas por causa do próprio Fórum senti-me empurrado a iniciativas para além dele, para iniciativas de incidência do plano local ao mundial, construindo as articulações necessárias.

 II. Elementos para uma agenda além FSM

  • Repolitizar a vida, a relação com a biosfera, o poder, a cultura e a economia e agir com uma perspectiva planetária e cosmopolita, este é o ponto de partida. Como assinalei acima, o FSM ressignificou a política e o poder, dando-lhes centralidade em contraposição às relações de mercado e à economia. Apontava, neste sentido, para o poder instituinte, constituinte e transformador da cidadania ativa. Não elaborava e não definia, enquanto tal, a agenda ou as agendas de luta. Legitimamente, as agendas de cada sujeito coletivo, individual ou as construídas em redes, coalizões e alianças, eram trazidas, debatidas e, muitas vezes, atualizadas nos eventos do FSM. A responsabilidade por elas era de quem as adota, não podendo ser impostas ao conjunto dos participantes do Fórum. Não sendo o FSM o objetivo da ação política transformadora, mas apenas um meio de fortalecê-la, a questão da agenda política foi o ponto crucial para cada participante, como expressão de seu direito e responsabilidade humana e cidadã. É neste sentido que pensava e continuo pensando ser um dever como participante priorizar a agenda política no antes e no pós eventos dp Fórum. O além FSM a que me refiro tem este sentido de intervenção nele com uma agenda que se elabora, até inspirada por ele, mas sem se limitar a ele, tomando o FSM apenas como um momento de reflexão e troca. A minha prioridade era e é avançar na agenda de luta e buscar as parcerias e alianças possíveis para melhor incidir nas diferentes situações e contextos em que vivo.
  • Atualmente penso que a questão central de uma agenda de enfrentamento do capitalismo é a busca de alternativas à “crise de civilização” que tem por base o domínio colonial, racista, patriarcalista, eurocêntrico e imperialista sobre povos e a natureza e  o crescimento industrial, produtivista e consumista em função da acumulação desenfreada. Destruição ambiental e injustiça social são condições intrínsecas do capitalismo, exacerbadas hoje com a globalização a serviço dos grandes conglomerados econômicos e financeiros sob a guarda militarizada imperialista. A fratura social só se aprofunda e a ruptura com a biosfera e os bens comuns da vida para todas e todos chega ao limite do irreversível. Não é possível tornar sustentável tal civilização, daí a crise. Para tornar sustentável a vida, toda forma de vida, os povos e suas sociedades, é fundamental enfrentar a injustiça em sua dupla face: social e ambiental, injustiça ecossocial, como hoje defino. Para tanto, se impõe como prioridade a disputa do ideal do bem viver e uma busca sistemática de alternativas de poder e economia ao modelo de desenvolvimento industrial, produtivista e consumista do capitalismo. Mas não é mais possível limitar-se à mudança das relações sociais de produção para dar vazão às forças produtivas, como posto no ideal dominante das esquerdas. Trata-se de por junto em questão o tipo de desenvolvimento de forças produtivas. Ou seja, o ideal da sociedade industrial, sua produtividade e acumulação sem limites, dos bens e serviços que propicia e do estilo de consumo e de vida que gera, é parte da injustiça ecossocial que precisamos enfrentar. A idéia de resistência à mercantilização de tudo, dos bens comuns e da própria vida, esteve sempre bem presente no clima do FSM. Mas isto é pouco. É todo o imaginário de civilização humana de bem com a natureza que precisa ser refeito, do local ao mundial, segundo as possibilidades e limites da biosfera e da criatividade cultural, científica e técnica de cada povo, num espírito de interdependência e solidariedade planetária, resiliência e sustentabilidade.
  • Um elemento chave da nova cultura política e de uma agenda de transformação social é descolonizar e libertar nossos modos de pensar e agir. Muitas formas de ver as questões da exclusão social e pobreza nos tornam presas fáceis de uma agenda de desenvolvimento imposta pelo poder colonial e imperialista do capitalismo. Não conseguimos pensar alternativas de criação de maior justiça ecossocial fora de um quadro estreito de crescimento econômico. No contexto de “crise de civilização” que vivemos é outro poder e outra economia que precisam ser pensados. Precisamos ainda desnaturalizar as relações que condenam muitos à pobreza, à exclusão e múltiplas formas de desigualdade e dominação. Não é a falta de desenvolvimento que explica tais situações, pelo contrário, é por causa dele. O desenvolvimento como símbolo da civilização que vivemos alia o velho e o novo e deles se alimenta. Reinventa constantemente o racismo, o patriarcalismo, a xenofobia e intolerância com a diversidade social e cultural para dominar e excluir. Hoje é visível a territorialização do racismo, no interior das sociedades (favela x asfalto), entre cidades e regiões, entre cidade e campo, entre agronegócio e formas sociais diversas de produção e vida de grupos excluídos, e nas relações entre povos e nações, num verdadeiro processo de racismo ecossocial. O velho patriarcalismo é renovado e naturalizado pelo capitalismo. Com isto domina e desvaloriza, mas se beneficiando, de uma economia do cuidado, impondo uma dupla jornada de trabalho às mulheres. A publicização e politização dessa agenda que emerge das lutas das mulheres é tarefa da cidadania como um todo, do local ao mundial.
  • Em termos de agenda política, tendo presente o contexto de crise profunda em que está o sistema hoje e mirando o caminho a construir para a transformação desta civilização de injustiça ecossocial, é fundamental pensar no processo necessário de rupturas cumulativas. A questão que se coloca é política e ética ao mesmo tempo. A legalidade institucional deve ser tensionada pela legitimidade da mudança. O arcabouço institucional que nos confina a Estados Nação se revela uma arena necessária, mas extremamente limitada da luta por “outro mundo possível” ou, como hoje prefiro, “outra civilização possível”. Estamos diante da necessidade inadiável de contrapor a soberania cidadã e dos povos aos Estados nacionais e seu monopólio na esfera mundial do poder (mesmo quando Estados subordinados e subservientes, como a maioria dos quase 200 países do mundo). Isto implica em tensionar a legalidade existente, dentro e fora, em nome de uma legitimidade e responsabilidade ética de rever processos e estruturas, políticas e econômicas, que negam direitos iguais e destroem as bases naturais da vida. Considero fundamental aqui radicalizar uma concepção emergente no processo FSM: a cidadania não é uma dádiva dos Estados, mas condição política de ser parte da humanidade. Tirando as consequências de tal afirmação, surge necessariamente a agenda de repensar e refundar o Estado como expressão política do poder que as “cidadanias”, iguais e diversas, lhe conferem. Vasta tarefa de construção política, que precisa ser feita com mente aberta e muita ousadia política.
  • Isto me remete a mais um elemento essencial da agenda: a nova arquitetura do poder. A interdependência entre povos e nações, no quadro do capitalismo globalizado de hoje, é sem dúvida um grande problema gerado pela dominação imperialista dos países desenvolvidos, particularmente dos Estados Unidos. Mas a interdependência traz, contraditoriamente, uma enorme possibilidade de futuro. O próprio FSM como espaço de uma emergente cidadania planetária não seria possível não fosse a difusa consciência de interdependência onde, em nossa diversidade de povos, culturas e identidades políticas, somos parte de uma mesma humanidade e compartimos um mesmo Planeta. Interdependência, porém, não pode ser pensada e praticada sem uma localização concreta, onde temos o essencial de nossas vidas e relações com os outro(a)s e realizamos nossas trocas com a biosfera. Como repensar este fundamental local, em termos de poder, cultura e economia, de uma perspectiva cidadã planetária? E como repensar o poder mundial de uma perspectiva de cidadania territorializada?
  • Finalmente, como brasileiro, penso que é indispensável problematizar o Brasil no contexto mundo. Sabemos que temos muita injustiça ecossocial para dentro com que nos ocupar. Corremos, porém, o risco de referendar uma agenda que vai contra tudo o que apontei acima. Como país emergente, o Brasil tende a usar a base de recursos naturais de que é dotado, em um mundo carente de tais recursos, para a seu modo fazer valer a estrutura de poder regional e mundial a seu favor. Isso aconteceu com governos progressistas do PT (Partido dos Trabalhadores) e se radicaliza agora com o governo autoritário que temos. É desse Brasil que a cidadania planetária precisa?

 III. Um possível modo de agir para além do FSM

  • Aqui quero chamar atenção para a incontornável necessidade de organizar de forma nova as forças para impulsionar a agenda cidadã de construir outra civilização. Novamente o FSM serve como um caldo inspirador, mas falta a tarefa difícil e continua de organizar os sujeitos coletivos da cidadania, avaliar as oportunidades políticas e ir à luta. Só destaco alguns pontos, pois, de fato, é no agir que se faz a ação (é caminhando que se faz o caminho). Ele começa pelo acordo sobre a agenda, que por mais amplo que seja sempre será dos que a ele aderem. Portanto, ele já aponta para um além do FSM, para a pluralidade de cidadanias como bloco histórico possível da cidadania planetária constituinte e instituinte de outro mundo. A questão mais delicada é construir coalizões de sujeitos coletivos com um máximo denominador comum (para me contrapor ao mínimo denominador comum de certas declarações genéricas e vazias) sobre a agenda e a ação política. Falo de coalizões intermovimentos e organizações de cidadania ativa. A experiência existente, de relativo sucesso, é de campanhas temáticas e as redes de construção coletiva de pensamento estratégico, como é a GTI. No caso, porém, falo em ações diferenciadas e coordenadas de uma cidadania militante, visando tensionar estruturas e poderes existentes, nas mais diversas situações. A cultura política de incidência mundial é intramovimentos e organizações, ligando o local ao mundial. Falta-nos o intermovimentos, organizações e redes com visão estratégica do conjunto da tarefa política.
  • Um elemento metodológico a considerar é a possibilidade de transformar a idéia de redes – dominantemente de diálogo político e concertação sobre agendas temáticas comuns – para algo mais no sentido da iniciativa e incidência coordenada, como um verdadeiro trabalho político de cidadania desenvolvido em rede pelo conjunto diferenciado de sujeitos em coalizão. Além da agenda propriamente dita para a ação, definem-se os princípios e valores éticos norteadores, os objetivos comuns e as formas de mobilizar e compartir recursos entre os parceiros. Isso exige paciente trabalho de construção do que potencialmente venham a ser os sujeitos coletivos políticos, de novo tipo, necessariamente plurais e diversos, com suas próprias identidades e propostas, do local ao mundial, se articulando para ter potência de transformar o mundo.
  • A questão crucial do agir é a disputa e construção política e cultural de hegemonia nas sociedades locais concretas e nos vários níveis de incidência política, até as estruturas de poder mundial. Refiro-me à disputa de hegemonia no sentido gramsciano que, numa apropriação livre, defino como a criação de “grandes movimentos cidadãos irresistíveis”. Como fazer isso sem protagonismos a priori, como é da tradição de esquerda? O segredo, me parece, está na construção de coalizões abertas, que partem de reconhecer como indispensáveis os outros e outras e que de todos e todas depende a própria agenda e a construção do caminho de sua implementação. Desse modo podem gestar-se consensos ativos, fundamentais para dar força na disputa de hegemonia. Mas é fundamental reconhecer que, para a cidadania, sempre o espaço público do debate e da livre circulação de idéias é a prioridade. A comunicação e as campanhas públicas são, assim, uma arena prioritária do modo de agir necessário.
  • No FSM falava-se em democratizar a democracia. No meu modo de ver, democratizar a democracia é potencializar o seu caráter de modo de transformar o poder, a economia e a sociedade. Como? Como concretizar a radicalidade do agir contido em tal afirmação? Penso que a radicalidade está em fazer valer as contradições da disputa de hegemonia e poder que a democracia propicia com uma estratégia de revolução permanente, de legitimidade das demandas cidadãs instituindo a legalidade do direito, como conquistas democráticas.

 

(*) Cândido Grzybowski, sociólogo, presidente do Conselho de Governança do Ibase