O local e o mundial para a cidadania

Cândido Grzybowski
Sociólogo, presidente do IBASE

A pandemia nos confinou de forma meio imperativa aos lugares, se não totalmente ao menos como uma ameaça de risco no ar. Mas não é o isolamento na pandemia – imposto, voluntário, respeitado, negado, flagrantemente não aceito, politizado, disputado e tudo mais – o tema de minha crônica. Preocupam-me particularmente os novos olhares sobre os nossos territórios e sobre o próprio mundo atual que a pandemia ensejou. Como fenômeno de dimensões mundiais, ela se alastrou em todas as direções a partir do coração industrial mundial, na China, ao coração financeiro do capitalismo globalizado, a New York dos EUA, os polos de incubação e difusão da pandemia. Daí se irradiou, para outros países, sempre a partir das metrópoles, num processo que foi das cidades aos territórios rurais mais isolados. Aliás, ainda continua e parece de sete vidas, pois renasce aonde já se pensava lugar livre da ameaça. Esta pandemia não nega o seu caráter de cria da globalização e do neoliberalismo das grandes corporações econômicas e financeiras em busca de acumulação a todo custo, transformando tudo em mercadoria, sem limites. São as relações globais impostas ao mundo que deram uma dimensão também global a um vírus liberado pelo agronegócio, ele mesmo um negócio globalizado. O incrível é que a pandemia se espalha sorrateira como são os negócios mundiais, sem regulação, com seus paraísos fiscais, lavagem de dinheiro, etc. As barreiras sanitárias nas fronteiras nacionais, rodovias, portos e aeroportos se mostraram incapazes no controle.

Trago a questão do local e do mundial pela estratégica importância que carrega para nosso ser, estar e agir, como humanos, interdependentes entre si, com toda teia da vida e com os sistemas ecológicos da Mãe Terra, bem comum de todas e todos. Senti-me motivado a voltar a escrever sobre a minha visão a respeito de tal questão a partir da última Assembleia do Ibase (uma live), no dia 08/10/20. Na hora final, momento de trocas entre participantes sobre a conjuntura, a cidadania, o papel do Ibase, entre outras colocações, a questão do que priorizar no momento recebeu certo destaque. Falamos de desafios locais, o que se passa nas favelas, enfrentamento da pandemia e violência policial nas periferias, eleições municipais. Também foram levantadas questões nacionais como a necessidade da continuidade do auxílio emergencial, da retomado dos investimentos e emprego. Mereceram destaque os desafios para a cidadania diante do desmonte autoritário em curso, racismo, desigualdades e tudo mais. Foi lembrado o poder instituinte e constituinte das mobilizações de cidadania que podem fazer a diferença, como, por exemplo, as grandes mobilizações antirracistas nos EUA, seu impacto na eleição presidencial de lá e, sobretudo, o impacto que está tendo no mundo como um todo. Surgiu, assim, o “internacional” e sua importância nas nossas lutas. Na verdade, o tempo não permitiu aprofundar a análise, mas acordamos voltar a fazer com certa regularidade debates de conjuntura. O fato é que precisamos recorrer às novas TICs para fazer isto, a partir de onde estamos. O isolamento que estamos fazendo não pode impedir-nos de retomar algo que historicamente se mostrou central no modo de ser e agir do Ibase como organização de cidadania ativa: as análises de conjuntura.

Pessoalmente, em minhas análises, tento limitar o conceito internacional àquilo que ele designa de fato: relações entre nações, ou mais precisamente, entre Estados Nacionais como guarda-chuvas dos que os controlam, as empresas, os grandes bancos, bolsas de valores, enfim, classes dominantes. São divisões e barreiras, relações e disputas geopolíticas, antes de expressar algo como relações de cooperação e solidariedade. Por isto, prefiro sempre pensar o internacional a partir da categoria mundo/mundial para exprimir o complexo planetário de relações, estruturas e processos em que a humanidade vive, com imperialismo, racismo, colonialismo, patriarcalismo, fundamentalismos e intolerâncias, desigualdades e destruição. Mas também territórios e locais que o Estado Nacional não dá conta, ignora, domina, vê a partir de uma ótica de homogeneidade e nunca da diversidade, apesar de que a vitalidade dos “locais” é vida em todos os sentidos. Além disto – e muito fundamental – o local é o nosso endereço, nosso lugar neste mundão. Lembro aqui o que Betinho dizia: “ao invés de olhar para o Planalto, precisamos olhar para a planície”. São nos territórios locais que se incubam as emergências e insurgências cidadãs, redes e movimentos de cidadania, que sim se articulam, criam sujeitos coletivos potentes, para além de seus locais e das fronteiras, sem pedir licenças aos Estados Nacionais para existir e agir. É esta polaridade e centralidade local-mundial que elejo como indispensável focar sempre para teorizar o todo e potencializar o agir cidadão no aqui e agora, em nossos territórios e a partir deles, enfrentando Estados e poderes que se acham acima da cidadania.

Assim posta a questão, gostaria de acrescentar que o mosaico de territórios e as contraditórias relações, estruturas e processos históricos entre eles movem o mundo e o configuram. Não podemos esquecer nunca que quando nos relacionamos, por exemplo com o movimento negro dos EUA, estamos partindo, nós e eles, de territórios concretos que se articulam através de movimentos, cada um em sua especificidade e tamanho variado. Portanto a análise não pode desdenhar de uma correta interpretação do mundial para com ele interagir, mas só podemos fazer isto a partir do local em que estamos, de nosso diagnóstico do local, reconhecendo que é diferente e ao seu modo aporta para configurar o todo. Ou seja, a boa análise para a cidadania é a que ao procurar entender as “entradas” e pontos estratégicos para incidência democrática ecossocial transformadora vendo como isto se integra no todo mundial e o está movendo. Talvez isto fique mais claro tomando-se uma questão como a crise climática e ecológica. Mas é possível entender o desmonte de direitos ou o avanço do autoritarismo e a ameaça fascista entre nós sem pensar o que se passa no mundo? O que nossas lutas contra o racismo ou o patriarcalismo têm de comum e de específicos em relação às lutas pelo mundo? Ao mesmo tempo, temos que ter presente que as conjunturas mundiais, como a atual crise, precisam ser matizadas localmente para que nossa incidência faça a diferença.

Bem, estas questões são importantes particularmente para organizações de cidadania ativa que incidem no debate público e disputam narrativas, num esforço de contribuir para que ganhem hegemonia na sociedade civil os princípios e valores éticos, os direitos iguais na diversidade, a democracia como processo de transformação e construção permanente, o respeito à integridade dos sistemas ecológicos da natureza que nos dá vida, a interdependência de todos os povos, de todos os territórios, de todas as formas de vida existentes no mundo. A dinâmica local-mundial, prenhe de contradições em movimento, mas integradora e incontornável, teoricamente não nos informa de onde partir para a análise, o que priorizar, mas antes exige que as nossas narrativas não tenham sentido se não levarem em conta a sua centralidade para entender o mundo globalizado pelo capitalismo que nos sufoca e destrói.

Claro, seria ingenuidade pensar que isto basta. Definitivamente, não! Precisamos cada vez mais pensar numa engenharia política cidadã. Refiro-me à necessidade de saber nos organizar em redes de parceria cidadã para juntos melhor analisar e agir, cada qual fazendo uma parte que tenha sentido para o todo e que, ao mesmo tempo, o todo requalifique a parte. A filosofia da práxis – teoria mais ação transformadora – exige a decomposição para entender e recomposição como todo pensado e significado para saber agir. Ou seja, em termos de contribuir para a práxis desde onde estamos, aqui no Rio, precisamos analisar a complexidade da dinâmica local-mundial, como ela se estrutura localmente e impacta o mundo. Para isto precisamos saber nos organizar como coletivos cidadãos, com divisão social de tarefas bem acordada e com vontade de nos juntar para pensar, saindo de nossas casinhas e viseiras. Cumplicidade é necessária, mas insuficiente para que avancemos. Tratar nossas diferenças e divergências é condição para juntos nos sentirmos compartilhando cidadania ativa que pode contribuir na tarefa coletiva de uma democracia ecossocial transformadora, aqui, com sentido de estar fazendo uma ação de dimensão planetária. Tarefa para o Ibase? Sim, mas não sozinho, sempre com outras organizações e movimentos sociais. Este é um desafio que não pode ser ignorado. Sozinhos corremos o risco de ver muito pouco e flanar como mosca tonta, sem saber a quem picar. Afinal, uma nuvem de moscas picadoras faz qualquer elefante correr da raia. Já é algo estratégico, dada à conjuntura em que estamos metidos.

Rio, 26/10/2020