O encanto do Rio se sobrepõe às agressões sofridas

Cândido Grzybowski
Sociólogo, diretor do Ibase

 Acabei de voltar de uma caminhada pelo Parque o Flamengo, seguindo até a enseada do Botafogo. Acabava o dia e começava a noite, num clima quase frio neste final de outono. A Lua Cheia despejava o seu esplendor prateado sobre o Pão de Açúcar, este nosso enorme diamante negro, lapidado ao longo de séculos, que dá identidade à nossa cidade. Uma única e pequena nuvem envolvia o topo como uma coroa. A emoção diante de tão rara cena fez o coração disparar. É bom viver e sentir que a gente é parte disto. Na volta, passei pelo caminho no interior do Parque do Flamengo, totalmente iluminado. Acompanhei a obra diariamente nas últimas semanas. O resultado da nova iluminação dá um toque especial ao que Burle Marx e Lota nos deixaram como legado. É uma maravilha de bem comum de toda a cidadania carioca, produzido como se fosse um jardim tropical, com árvores e palmeiras. É bom lembrar que o Parque do Flamengo é um aterro na Baía da Guanabara feito com as toneladas de entulho gerado pela destruição imposta ao Morro do Castelo, no Centro do Rio. Agressão radical e dupla, no Morro e na Baía, acabou transformada em um comum nos dias de hoje, o Parque cheio de vida com uma natureza replantada, que pode receber mais de 100 mil cariocas nos fins de semana. Mas houve quem quisesse, lá atrás, que o aterro virasse um enorme condomínio privado.

Resolvi escrever sobre a cidade e como ela resiste, se transforma e se regenera em meio a agressões, pois estou cansado daquela política de golpes baixos e conluios de Brasília. Meu cansaço foi maior neste fim de semana, pois acabei fazendo um artigo de conjuntura política nacional, mais extenso do que várias das minhas crônicas semanais, para o próximo número da revista digital Trincheiras, do Ibase. Aí fiz um esforço enorme analítico para descobrir alguns indícios mais profundos e desafiantes na crise política que estamos vivendo. Aliás, a caminhada de final da tarde – normalmente caminho pelas manhãs – foi para espairecer. Daí me deixei levar pelo encanto de nossa cidade.

A energia e capacidade de criar, resistir e renovar-se do Rio de Janeiro é simplesmente notável. A natureza é bela e forte, a cultura é vibrante, a cidadania não desiste dela nunca, mesmo atropelada por governos que lhe dão as costas uma vez eleitos. Estamos vivendo um novo caos urbano induzido por governantes. Obras sempre teremos e muitas são necessárias, até as queremos. Mas agressões em várias frentes ao mesmo tempo, com uma lógica técnica e autoritária, são obras de reconfiguração do bem comum cidade não discutidas com quem nela vive. Pode até resultar que algo extremamente positivo surja daí, como atesta o exemplo do Parque do Flamengo dos anos 60 do século passado, em meio a monstruosos viadutos para carros e uma radical política de “limpeza” da Zona Sul com remoções de favelas.

Hoje o caos é em nome da adequação da cidade para as Olimpíadas. No meu modo de ver, os jogos caíram como uma luva para justificar a remodelagem da cidade aos grandes negócios, tornando-a uma cidade global. É bom e saudável recuperar a Zona Portuária e o velho centro. Mas quem leu aquele plano do Porto Maravilha, de grandes prédios privados de luxo, tipo Dubai Tupiniquim, vai concordar comigo: isto não é uma questão de melhorar a cidade para ser mais cidadã, mas para torná-la mais atrativa aos negócios. A isto a gente poderia acrescentar muita outra coisa, particularmente em relação aos transportes. Que caos que estamos vivendo! O VLT pode ser, sim, um grande legado para o centro e a mobilidade urbana. Mas haja paciência para suportar a violência no cotidiano dos últimos anos. Tudo sem consultar ou, ao menos, apresentar claramente os planos, tirando deles o caráter técnico e autoritário de que estão revestidos. Enquanto isto, vamos sofrendo sem saber bem até quando.

Comecei esta crônica falando de coisas boas, que engrandecem o bem comum cidade, que compartilhamos e amamos. Pois bem, com minha companheira de 48 anos, me dei ao luxo de fazer uma caminhada, em uma manhã de muito sol, da Zona Portuária à Praça 15. Os dois ficamos encantados, emocionados até. Não entramos nos novos museus, o MAR e o do Amanhã, na Praça Mauá totalmente renovada. Curtimos o espaço, o desenho dos prédios novos e velhos redescobertos. Adoramos a vista da Baía, de um ângulo que nos foi negado desde os anos 60. Deu para sentir um grande bem comum em processo de resgate. Mas se não agirmos como cidadania com determinação para que se mantenha totalmente como espaço livre, aberto, público, comum, isto será novamente colonizado e privatizado por negócios e serviços.

Este é um caso em que agressões podem virar um ganho. Porém, será ganho se nós o assumirmos como bem comum. Lembro aqui que para a vista magnífica ser total foi necessário implodir o elevado e fazer o túnel e o binário, troca de seis por meia dúzia, cara e bom negócio para empreiteiras. Por isto, fiquemos de olho, pois a fatura não revelada nos será apresentada e talvez a Zona Portuária vire mais uma área para endinheirados, que não gostam de gente comum, pobres e negros. Aliás, gentrificação na área já ocorreu e continua. Toda a infraestrutura pronta, aquilo poderia ser a zona popular mais inclusiva do Rio, bem perto do Centro e dos empregos. Mas isto está longe da Prefeitura. Espero que consigamos transformar as mudanças ocorridas na área em um grande tema de debate na conjuntura eleitoral que se avizinha. Só com nosso engajamento conseguiremos manter as mudanças feitas, mesmo violentas como foram, como um ganho para toda a cidadania de hoje e amanhã.

Termino lembrando um grave problema que aquela orla maravilhosa redescoberta revela. A obra foi em terra firme, limítrofe da Baía. As águas da Baía de Guanabara, aos pés da gente, parecem clamar por cuidado. São uma sujeira só, uma cloaca monumental, do tamanho da própria Baía. Como podem governantes fazer uma coisa e não outra, sendo ambas unidas de forma permanente, indissolúvel? Esta contradição revela o caráter extremamente contraditório na origem das obras agressivas. Elas recuperam, sim, mas só uma parte. O problema de fundo é que os comuns são comuns como um todo, também indivisível. Assim, a orla maravilhosa, que encanta, é, também, uma redescoberta da monstruosa agressão que sofrem as águas de nossa encantadora Baía da Guanabara. Portanto, lutemos para preservar a orla reaberta como comum e, para que isto seja duradouro, lutemos ao mesmo tempo pela despoluição de nossa Baía.