Feminismo como força transformadora do ativismo

Cândido Grzybowski
Sociólogo, presidente do Conselho Curador do Ibase

No Dia Mundial das Mulheres, 8 de março, como um ser tornado homem pela sua história pessoal, sinto a necessidade de socializar com quem lê as minhas crônicas de ativista as reflexões que venho maturando ao longo dos anos, especialmente agora diante da verdadeira insurgência feminina pelo mundo. Além do que significa para mim mesmo e minha emancipação, tenho um particular interesse nas implicações filosóficas e políticas do feminismo como movimento de cidadania, talvez o único de caráter planetário, para além de barreiras de gênero, classe, raça, colonialismo, nacionalismo, religião. Ele é, sem sombra de dúvidas, o maior, o mais ativo e radicalmente inspirador movimento da atualidade, tendo como eixo central a emancipação feminina, que depende da emancipação de toda humanidade. A sua luta leva a elaborar e ser portador de visões e valores capazes de congregar e cimentar forças diversas, tanto das mulheres no confronto das sete vidas do patriarcalismo, como das múltiplas formas de ser mulher, de sofrer domínio e exploração, bases do capitalismo enquanto tal, que não seria o que é sem o patriarcalismo. Neste sentido, penso que o feminismo hoje tem a capacidade de apontar transformações no próprio paradigma civilizatório, superando o capitalismo no que ele representa em termos de exploração, dominação e destruição.

Fiz muitas leituras, sempre de grandes mulheres ativistas femininas e intelectuais. Fico em dúvida por onde começar, pois minha formação intelectual esteve nas proximidades, mas nunca foi centrada na compreensão da luta das mulheres no enfrentamento do patriarcalismo. Minha grande inspiração teórica, filosófica e política – o conjunto da obra de Gramsci como versão mais cidadã e menos estrutural-determinista do marxismo como filosofia da história – abre a possibilidade de analisar e entender o capitalismo a partir de blocos de forças históricas forjados pela combinação de condições objetivas, dadas, mais vivências, consciências e vontades. Gramsci é radical no sentido de ver a história como algo sempre em aberto, por ser feito, sempre, sem determinismos absolutos, mas como ação humana por liberdade, como criação do possível em circunstâncias dadas. Seu grande foco foi o fascismo como hegemonia. Como seria a análise de Gramsci sobre o feminismo hoje é uma questão em aberto. Reafirmo aqui o que venho dizendo há muitos anos: foi no processo do Fórum Social Mundial que as mulheres e seus movimentos me fizeram mudar profundamente o olhar e, num certo sentido, me libertar de visões ainda contaminadas pelo eurocentrismo, patriarcalismo, colonialismo e racismo, mesmo de esquerda.

Talvez eu deva começar por quem esteve mais próximo no meu campo intelectual, a Simone de Beauvoir. Em seu livro de 1949, O segundo sexo, Simone afira algo que hoje adquire pleno sentido para mim: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Refletindo sobre isso, Judith Butler faz uma preciosa reflexão: “(…) sexo seria dado pela biologia, enquanto gênero seria a interpretação cultural do sexo. Pode-se nascer como mulher no sentido biológico, mas a partir daí navega-se numa série de normas sociais e intenta-se como viver como uma mulher – ou como outro gênero – numa determinada situação cultural”. Isso vale igualmente para nós homens. Em sua reflexão, me parece fundamental destacar a seguinte análise: “…somos sempre ‘construídas’  no sentido de que não escolhemos. E, mesmo assim, buscamos construir uma vida em um mundo social em que as convenções estão mudando e em que lutamos para encontrar a nós mesmos nessa teia de convenções existentes, mas também mutáveis. Isso sugere que sexo e gênero são ‘construídos’ de um modo tal que nem são totalmente determinados nem totalmente escolhidos, mas, ao contrário, capturados em uma permanente tensão entre determinismo e liberdade.” De passagem, vale lembrar aqui o sentido profundamente autoritário e anticidadania do ataque à “ideologia de gênero” entre nós.

Estando presente tal consideração, vou a um outro insigth inspirador, desta vez da nossa grande ativista feminista e intelectual, Rita Laura Segato: “…nossos antagonistas em termos de projeto histórico perceberam antes que nós mesmas que o tema do patriarcado é o cimento. Eles, com sua reação fundamentalista feroz e desvairada, nos estão mostrando que o nosso não é um problema de minoria, não é um problema de um grupo particular da sociedade que seríamos as mulheres, mas, ao contrário, é um tema que bem disputado pode transformar a história e superar o autoritarismo e os esquemas onde o seu poder se instala. Eles não estão dizendo. E é algo que nós, mulheres, como movimento social não tínhamos percebido em sua profundidade: nosso movimento pode mudar o rumo da história”.

O feminismo como movimento planetário e transformador vem se fazendo a partir da luta e através da luta. Ele está criando fundamentais visões e valores necessários para a disputa de uma hegemonia capaz de superar o atual capitalismo e suas contradições. O feminismo se faz interpelando o protagonismo a priori de alguns sujeitos sobre outros, de umas lutas sobre outras. O protagonismo se faz na prática efetiva, como cidadania ativa. O feminismo vem se tornando protagonismo porque necessita e aprendeu a transformar a diversidade em coalizão, em projeto coletivo, comum, direção compartida e forte porque agregadora. Tachado como movimento por reconhecimento de identidade política e, portanto, sem potencial transformador por muitas esquerdas sindicais e partidárias pelo mundo – como se a questão da identidade coletiva não fosse um desafio central para qualquer movimento social, basta pensar na distinção marxista entre classe em si e classe para si – o fato é que o feminismo é que mais avançou no sentido de trazer a diversidade para dentro e transformá-la em sua força política de caráter planetário. O importante é que no processo o feminismo cresceu como protagonista de outro mundo possível para todas e todos.

O espaço dessa crônica não me permite aprofundar esta questão como seria necessário, pois isso se fez na prática histórica e não a partir de estratégias previamente definidas, como ainda concebemos dominantemente o fazer política. As mulheres lutam contra o patriarcalismo como sistema pétreo, em permanente renovação, de poder, que domina mulheres e que torna os homens e a masculinidade uma forma de opressão que perpassa tudo na sociedade, na cultura, na economia e nas instituições políticas. O capitalismo exacerba o patriarcalismo e todas as suas formas. Neste sentido, as mulheres nos fazem ver praticamente que o patriarcalismo é algo fundamental ao paradigma civilizatório que vivemos. Mas nos fazem ver também que não existe patriarcado sem sexualidade, sem classe social, sem racismo, sem colonialismo ou nacionalismo, sem domínio e destruição da natureza (ela, por sinal, feminina). Lidar com vivências e lutas de mulheres no interior de todas estas interseções combinadas contraditoriamente na realidade.

A força e o protagonismo das mulheres na construção de um movimento de cidadania planetária transformadora está sendo a “interseccionalidade”, como bem define Julie Matthaei, a busca do comum na diversidade. Existem mulheres em luta contra o patriarcado com diferente vivência de classes social, que sofrem o racismo, se integram em diferentes realidades nacionais-estatais e tem diferentes experiências de viver em países desenvolvidos dominantes ou nos países ainda marcados pela colonialidade do poder no capitalismo. A interseccionalidade surge como conceito no processo de ampliação da visão e expressa “…a ideia de que raça, classe, nacionalidade, e até a nossa concepção da ‘natureza’ estão se determinando mutualmente” (em tradução livre), segundo Julie. Aqui estamos para além da política identitária e entramos na “política da solidariedade” como condição do próprio movimento e seu atual protagonismo. Solidariedade que está arrastando a nós, homens, numa luta comum.