Caindo na real

Cândido Grzybowski
Sociólogo, diretor do Ibase

O impedimento da presidenta Dilma caminha para o desfecho previsível. O que temos pela frente é apenas um rito formal, a consumação de um golpe legal contra a decisão majoritária da cidadania nas eleições presidenciais de 2014. Tivemos uma pausa com as Olimpíadas que, reconheço, com todas as críticas e reservas à transformação dos esportes em negócio global, nos permitiram respirar e até celebrar a beleza e a alegria da ocasião, bem ao nosso estilo de um povo que não perde oportunidade para cantar e dançar.

Mas a realidade se impõe. A crise da economia cassino em que estamos mergulhados continua com sua virulência destrutiva das bases de vida de muita gente, tudo em nome da restauração da ditadura do mercado e da sustentabilidade dos negócios de especuladores. É trágico ver a quantidade de gente jogada nas ruas de nossas cidades, viradas seu abrigo, mendigando qualquer coisa para comer. Dói muito ver mães com seus filhos pequenos de olho na caixa do supermercado e contando os trocados para ver até onde podem ir suas compras de cesta básica, cortando em suas próprias necessidades essenciais. Assombra a quantidade de gente à cata de emprego, seja lá o que for. Estamos numa queda livre em buraco negro, com muita destruição e dor.

Nesse contexto de dificuldades e de falta de perspectiva, o calendário nos brinda com eleições municipais dentro de um mês e pouco. O que vai sair como resultado de tal processo? De minha perspectiva, essas eleições são um ingrediente a mais em nossa crise de legitimidade política. Legalmente, uns vão ganhar e muitos outros vão perder. E daí? Definitivamente, não estamos diante da possibilidade de reconquistar a política como espaço público comum de construção de projetos de sociedade, desde o local em que vivemos como cidadãs e cidadãos. A autopromoção dos candidatos e candidatas a prefeitos e vereadores, sem qualquer projeto para a coletividade com um sentido de construção do bem comum e promoção de direitos, acaba sendo até um escárnio, uma ofensa à cidadania. Como são ridículas e falsas aquelas imagens e falas nos meios de comunicação!

Enfim, nada mais urgente do que uma reconstrução radicalmente democrática da nossa política e do sistema que lhe dá suporte legal. O problema é que nem temos uma agenda real para discutir tal tema como cidadania deste nosso sempre surpreendente país, com suas contradições, desigualdades, exclusões e destruições, mas com muita energia, criatividade e possibilidades. Precisamos encontrar uma forma disto virar força de criação de um novo país, uma nova e vibrante sociedade, baseada no que tem de mais fundamental como comum.

Penso que no imediato a questão é sobreviver. Mais do que nunca precisamos de trincheiras cidadãs para fazer face à onda política destrutiva que nos atinge e que nos propõe o retrocesso, a desconstrução de conquistas e direitos, a volta à lei e à ordem que oprimem e excluem. Mas precisamos recuperar uma visão estratégica do que e como agir. Estamos profundamente divididos e sem a “liga” que junta a diversidade e a transforma em força política irresistível da cidadania que aposta em uma sociedade do bem viver, de direitos iguais, de centralidade dos bens comuns da natureza e de nossa cultura, de solidariedade e participação vibrante. 

Isto é possível? Claro que é! Construamos nossas trincheiras de resistência neste momento difícil acreditando em nós mesmos, sem salvadores da pátria. O momento é de olharmos para o nosso cotidiano e redescobrir as nossas próprias fortalezas. Sabemos o quanto estamos divididos e um tanto perdidos na confusão em que mergulhou o país. É urgente reencontrar os elos que nos une na diversidade do que somos e desejamos. Vamos descobrir que temos mais visões e propostas comuns do que as que nos separam.

Mas a realidade histórica, política e econômica não espera. Se não agirmos desde aqui e agora, outros o farão, até contra nós, como mostra muito bem a conjuntura atual. Não creio que poderemos mudar o desfecho dos processos em curso em tão curto espaço de tempo. Porém, não podemos deixar para amanhã uma reconstrução do protagonismo cidadão. Política, acima de tudo, é espaço público, debate aberto. Hoje, amanhã e depois, todos os dias enfim, podemos discutir em casa, no trabalho, na rua, no bar. Temos as redes sociais digitais que podem ser o nosso espaço de prática da liberdade de pensar, de propor, de divergir, de debater. A hora é de transformar a liberdade anárquica dos recursos das novas tecnologias de comunicação e informação em espaço cidadão por excelência.

Por onde começar? Penso que o melhor método, como nos ensinou Paulo Freire, é partir do sentido no cotidiano. Trata-se de politizar a nossa vida naquilo que ela é. Politizar no sentido de compartir, de conviver e de buscar o elo comum a partir dos problemas e possibilidades do cotidiano de todos os demais. Os projetos mais consistentes só serão viáveis se ancorados em sonhos que emergem no cotidiano vivido por muita gente, pela cidadania mais ampla possível. Somos dependentes mutuamente, todas e todos. O projeto de cidadania que cremos ser desejável e possível não sai milagrosamente da cabeça de alguém. Pode ser sistematizado por alguém ou por um grupo, mas sempre que conectado com os sentimentos, sonhos e desejos das gentes concretas, que lutam por levar a sua vida da forma a mais digna possível. Aí está a inspiração. O resto é construção coletiva com ousadia. Parece impossível? Afirmo e reafirmo que a grande história humana se fez por gente de carne e osso, engajada em tarefas coletivas definidas com ousadia e levadas até o fim com coragem.

Mesmo nesse contexto de adversidades, existe esperança. Vamos descobrir juntos a esperança e a criatividade contidas em nossas vidas, desde a sua simplicidade, mas cheias de sentido e afeto.