Cuidado e compartilhamento para vida sustentável – continuação

II – O cuidado: “coração invisível” da nova economia

Cândido Grzybowski
Sociólogo, presidente do Conselho de Governança do Ibase

O cuidado é um princípio central tanto para uma nova economia, como para um novo poder, uma nova organização social e novo modo de nos relacionar com a dinâmica da Gaia. A inspiração maior para pensar alternativas de paradigma civilizatório a partir do cuidado tem raízes nas diferentes análises, visões e propostas do feminismo. A partir da crítica contundente tanto ao patriarcalismo como ao capitalismo, que dominam e exploram as mulheres, impondo-lhes o trabalho doméstico não pago do cuidado, os movimentos feministas apontam para a transformação econômica sistêmica, desde aqui e agora. Para isso, é fundamental que os próprios economistas pensem de modo diferente.

A feminista e economista política Nancy Folbre, da University of Massachusetts Amherst, desafia a “mão invisível do mercado” de Adam Smith com o conceito de “coração invisível” para pensar a economia nessa perspectiva do cuidado: “A economia neoclássica não pode realmente mudar, mas os economistas podem. Eles devem parar de assumir que a busca perfeita do próprio interesse move o mercado e que o altruísmo perfeito embeleza a casa. As famílias e o conjunto dos sistemas econômicos de que são parte devem estimular e exigir compromissos equitativos para o cuidado dos outros e para os ecossistemas planetários” (em tradução livre). O cuidado é condição essencial da vida. Ele pressupõe a não exploração, a não dominação, a não segregação, a não agressão, a não destruição. Trata-se de criar, encantar-se e respeitar, proteger e regenerar a vida e o Planeta. Enfim, cuidar é nos ver e nos sentir parte da biosfera. “Mais que uma técnica, o cuidado é uma arte, um paradigma novo do relacionamento para com a natureza, para com a Terra e para com os humanos”.

Por isso, o cuidado é um questionamento radical da economia que temos, do utilitarismo extremado, da busca do próprio interesse, do homo economicus. O princípio do cuidado nos impõe a necessidade de mudar de paradigma, de deixar de pensar a economia como algo dependente das forças de mercado em competição, em buscas de lucro acima de tudo. A economia deve ser organizada segundo a lógica da vida e do cuidado que a permeia, entre nós humanos e entre todas as formas de existência, assim como com os sistemas ecológicos. Como já afirmei anos atrás, esse é o caminho possível para a biocivilização. Porém, com muitos descaminhos, pois ainda somos dominados pelas ideias do desenvolvimento a todo custo.

Para pensar a transição para uma nova economia, as contribuições da New Economics Foundation, de Londres, são uma importante referência no campo. O trabalho do cuidado é apontado como central da economia. Porém, em termos epistemológicos e de sistematização teórica do cuidado como sendo uma nova concepção econômica, tendo em vista mudanças no atual paradigma, considero a obra de Thera van Osch essencial. Em suas próprias palavras (em tradução livre): “Inspirada pelo movimento feminista a Ética do Cuidado é um promissor e novo enfoque filosófico. Ele representa uma compreensão alternativa de gênero para o enfoque dominante do utilitarismo na política, na economia e na vida social. O paradigma de cuidado dos seres humanos é multidimensional, reconhece a interdependência mútua entre indivíduos, com seus valores e emoções, junto com a racionalidade do utilitarismo.”

O cuidado está presente nos valores, atitudes e práticas, tanto nas relações entre as pessoas, como com o meio ambiente. O cuidado é uma experiência humana universal, presente entre nós, todo dia e em todo lugar. Porém, na civilização industrial, produtivista e consumista, do valor de mercado e da competição, movida pela busca de acumulação, o cuidado está excluído ou minimizado. Assim, ficam de fora da economia enquanto tal todas as atividades humanas do cuidado, que, no entanto, são essenciais para a vida e o Planeta. Contra a economia selvagem das forças de mercado em competição do capitalismo, onde ganha o mais forte, precisamos erigir o princípio do cuidado como central da nova economia.

Sem cuidado, a atmosfera foi colonizada pelas emissões de carbono do desenfreado produtivismo e consumismo capitalista. Hoje, a humanidade é ameaçada como espécie viva, assim como todas as formas de vida do Planeta. Sem cuidado, a conquista colonial de povos e territórios foi empreendida para sustentar o nascente capitalismo e ainda hoje a disputa pelos recursos naturais do Planeta continua destruindo. Em busca de maior produtividade, sem cuidado, foram criadas as sementes transgênicas, destruindo a biodiversidade. Sem cuidado, estamos poluindo a água, destruindo a vida dos oceanos, desmatando e criando desertos. O fato é que está se tornando impossível pensar em sustentabilidade sem o princípio e valor ético do cuidado na economia.

Para sairmos do labirinto capitalista faço minha uma afirmação categórica de Alberto Acosta: “O desafio está posto: construir desde baixo, desde as comunidades e desde a Pachamama, propostas que afirmem a reprodução da vida, não a do capital, nem a do poder”. De uma perspectiva de cuidado muda totalmente a percepção, a valorização e a organização social do trabalho, libertando-o das amarras da exploração e do domínio patriarcal e capitalista. A ciência, a inovação e a tecnologia do gênio humano, ao invés de visarem dominar e até destruir a lógica natural, passam a operar, com o cuidado, como força ecossocial que potencializa sem destruir o que a própria natureza oferece. Os bens comuns, tomados pela ótica do cuidado, voltam a ocupar o seu lugar na organização da economia, do poder e da sociedade.

Não cabe aqui avançar em todas as implicações que a ética do cuidado significa como paradigma de nova economia. Por isto, penso que é a definição de Thera van Osch sobre o modelo básico da economia do cuidado é suficiente aqui (em tradução livre): “O modelo da Economia do Cuidado é um enfoque que faz do Cuidado o ponto de partida e a força de empuxe da economia. Não se trata de privatizar e mercantilizar o setor de cuidado. A economia do cuidado é um enfoque econômico centrado no humano e amigável em termos ambientais. É um enfoque holístico. As relações mútuas e interdependentes entre homens e mulheres em toda a sua diversidade e entre gente e o meio ambiente natural são centrais para a economia do cuidado” (Osch,op.cit, p.13)