Cuidado e compartilhamento para vida sustentável

 I – Por que necessitamos de um novo paradigma civilizatório?

Cândido Grzybowski

Sociólogo, presidente do Conselho de Governança do Ibase

Inicio uma série de cinco crônicas levantando algumas questões que tem a ver com a difícil conjuntura e o momento histórico do Brasil e do mundo, mas que apontam para além, para a necessidade de transformações profundas. Aliás, no meu modo de ver, são as questões estratégicas do horizonte histórico (como bem definiu Boaventura Souza Santos), de mudança do próprio paradigma civilizatório, que devem orientar tanto a incontornável análise da conjuntura, buscando sinais e possibilidades de ação no aqui e agora, como construir visões, propostas e ideários mobilizadores da cidadania, definindo caminhos a seguir para a transformação ecossocial necessária na cultura, na sociedade, no poder e na economia. Esta é uma reflexão em que estou engajado há vários anos, começando com um longo texto e um seminário internacional no Ibase, em 2011, esboçando as condições éticas de uma “biocivilização” em oposição ao capitalismo atual. Penso que é oportuno por em debate mais amplo algumas das ideias desenvolvidas de forma mais sistemática desde então. Começo pela questão do cuidado na base da economia para outro mundo. Baseio-me num texto que escrevi a respeito, em 2018, e recentemente publicado na Alemanha, como parte do livro Ethics for Life.

O que me motiva para isto, em primeiro lugar, é o próprio momento de mobilização cidadã mundial exigindo efetiva ação de governos e empresas em torno à ameaça da mudança climática, com milhões nas ruas, especialmente jovens. Este é, apesar dos céticos climáticos,  um grande problema planetário, que pesa como uma ameaça de barbárie e extermínio descontrolado, em particular para as novas gerações e seus direitos à integridade do Planeta Terra, condição de vida. Com o governo do capitão, que se inspira no americano Trump e optou por condicionar o nosso futuro a uma inserção subordinado aos EUA, o caso do Brasil nesta questão climática, combinada com toda a dimensão ecossocial, virou emblemático do desastre em curso.

Mas há uma segunda razão, ainda mais forte. É gravíssima a ameaça de mudança climática e ações mitigadoras são urgentes. No entanto, para reverter a ameaça e preservar o clima é incontornável a necessidade de mudar o próprio sistema causador da mudança climática: a base econômica capitalista e o estilo de vida que engendra, no mundo inteiro. No nosso Brasil a questão é ainda mais grave. Enquanto Bolsonaro apronta com o seus filhos zeros, com um discurso de violência, intolerância e ódio, racista, homofóbico e patriarcal, o seu “Chicago Boy” Guedes, com estágio no governo de Pinochet, no Chile, com apoio de setores empresariais do atraso no Brasil para seu projeto ultra neoliberal, vai destruindo a institucionalidade, as leis e os regulamentos, as políticas do Estado e as empresas públicas, apontando para um capitalismo selvagem radical. A barbárie, entre nós, não está no horizonte de décadas, está minando o nosso cotidiano.

É necessário e ainda possível criar alternativas à civilização produtivista, consumista, socialmente concentradora de riquezas e excludente, destruidora da natureza, movida pelas forças de mercado em busca de lucros e acumulação. A desigualdade e a injustiça social exacerbada pela globalização, bem como a ameaça da mudança climática, tornam imprescindível e urgente tal tarefa de transformação de modos de viver, saindo da armadilha do desenvolvimento como ideal de vida. E não será com barbárie, com mais patriarcalismo, com racismo, xenofobia, fundamentalismos ou fascismos, com violências e guerras que poderemos enfrentar isto tudo.

Apesar de sermos grandes maiorias no Sul e no Norte, no Leste e no Oeste, que resistimos a isto tudo, ainda não criamos movimentos de cidadania enraizados nos vários territórios e suficientemente fortes para tornar efetiva a emergência de uma civilização alternativa. O que nos falta? Uma onda transformadora de tudo o que ameaça nosso futuro compartilhado como humanidade, respeitando a vitalidade das diferentes culturas e a integridade do Planeta Terra – nosso grande bem comum. Algo capaz de desencadear mudanças depende de imaginários mobilizadores, de sonhos e vontades coletivas fortes, de filosofias ativas, de valores e projetos também compartilhados. Estamos diante do desafio de buscar uma civilização humana sustentável em termos socioambientais, como alternativa à globalização capitalista e à barbárie.

Questões centrais na construção de alternativas civilizatórias são as utopias e as narrativas que dialogam com nossas diferentes identidades e culturas, nossas raízes e desejos profundos, que reconheçam iguais direitos e dignidade humana na diversidade do somos. Trata-se de reafirmar princípios e valores éticos, de visões e de propostas para a vida, todas as formas de vida, e o respeito à integridade do Planeta como pilares, diante de valores e ideais de lucro e acumulação privada de riqueza a qualquer custo. Por isto, construir alternativas é, ao mesmo tempo, desconstrução e descolonização do que nos é imposto. Precisamos de nova cosmovisão, de filosofias e teologias da vida que inspirem narrativas mobilizadoras para iniciar desde aqui e agora os caminhos de transformação.

Arquivo Ibase

A mudança possível implica em superar uma cosmovisão antropocêntrica e sua versão da história como sendo um permanente progresso humano. Como lembra o filósofo Michel Serres, além da história escrita, existe a história do planeta registrada em todas as coisas, naturais e humanas. “Consequentemente, a totalidade da realidade natural faz parte da nossa herança. Portanto, devemos cuidar dela”. Trata-se de cuidar da vida, em todas as suas formas, de como elas se relacionam entre si e com sistemas ecológicos da biosfera, como a humanidade enquanto força ecossocial impacta nesta dinâmica e é por ela impactada. O teólogo brasileiro Leonardo Boff é contundente a respeito:

A vida mostra uma unidade sagrada na diversidade de suas manifestações pois todos os seres vivos carregam o mesmo código genético de base que são os 20 aminoácidos e as quatro bases fosfatadas, o que nos torna a todos parentes e irmãos e irmãs uns dos outros. Cuidar da vida, fazer expandir a vida, entrar em comunhão e sinergia com toda a cadeia da vida e celebrar a vida: eis o sentido do viver dos seres humanos sobre a Terra, também entendida como Gaia, superorganismo vivo e nós humanos como a porção de Gaia que sente, pensa, ama, fala e venera.”