Artigos

Cultura alimentar e resistência transformadora

Cândido Grzybowski
Sociólogo, do Ibase

A gente tem certa dificuldade em associar as grandes análises econômicas, sociais e políticas, tanto sobre as relações, estruturas e processos de exploração e dominação, como sobre a hegemonia que a globalização neoliberal capitalista, com o modo como vivemos. Parece até que nos consideramos – falo de nós, analistas críticos – imunes diante dos valores, sentimentos, comportamentos e estilos de vida de nosso cotidiano totalmente contaminados pelo capitalismo globalizado. Penso que é mais fácil convencer pessoas sobre a destruição associada ao modelo extrativista de desenvolvimento – mineração, energia, agronegócio – do que demonstrar como nosso modo de viver está hoje profundamente dependente desse mesmo extrativismo.
No meu tempo de professor, quase 30 anos atrás, para pensar na trama de relações que é o nosso viver, muitas vezes propus às alunas e alunos pensar a sociedade a partir do prato de comida de um domingo com a família. O meu esforço, então, era explicar o trabalho social invisível contido na comida diante da gente: quem produziu aquilo? Em que condições? Quais as relações que regiam aquela produção? Onde e em que contexto territorial, social e político? A que preço se produziu e se comercializou? Não dá, aqui nesta crônica, para descrever a verdadeira experiência de “descoberta” do social na comida pelos alunos. A partir daí se tornava fácil discutir trabalho assalariado e trabalho escravo, propriedade, latifúndio e estrutura agrária, empresas de processamento, transformação e comercialização, a tal “mão invisível” do mercado que transformava o grande pomar brasileiro em exportador de etanol em troca de frutas do Chile – uma falta de lógica, não? Sempre me pareceu uma forma fácil de explicar a lógica capitalista e o modo de organizar a nossa sociedade em classes e… definir de algum modo o que comemos e o que não comemos. Na época, eu era um investigador apaixonado dos “novos movimentos sociais” e de seu potencial democratizador, movimentos que, no campo e nas cidades, cresciam como cogumelos.
Hoje, reconheço que meu esquema criativo tem muitos furos diante de uma perspectiva transformadora mais radical. O cuidado como atividade essencial em nossas vidas ficava de fora do esquema. No entanto, era o cuidado – trabalho social básico de mulheres, companheiras e esposas no nosso patriarcalismo – que preparava aquilo que ativava o apetite, aquele pratos de gostos, cheiros e cores, sem o que todo o trabalho antes da cozinha poderia nada significar para nós. Aí o patriarcalismo se esconde em meio de sabores e amores! Também a cultura, o alimento como cultura alimentar, cheio de significados, cosmovisões, religiões e história, definindo civilizações, me escapava. Descobri depois que a cultura alimentar pode ser uma base fundamental de resistência e transformação.
Na semana que passou, consegui ler uma inspiradora entrevista de Sul21 com Sebastião Pinheiro, engenheiro agrônomo e florestal, que dedica a sua vida a estudar a relação entre agricultura, saúde e meio ambiente . Nesta entrevista, ele afirma algo essencial para a gente pensar: “Estão acontecendo coisas muito estranhas e estamos meio perdidos. A própria agricultura mudou de nome e que não significa cultivo somente. Ela envolve uma cultura que tem uma espiritualidade, uma religiosidade, valores e natureza associados a ela. A agricultura passou a ser agronegócio. Isso foi um baque tremendo. Saiu a cultura e entrou o negócio”. E logo adiante acrescenta: “Quando a agricultura virou agronegócio, o agronegócio deixa de ser um problema da vítima e passa a ser a ideologia do dominador”. Estamos diante de uma mudança fundamental no prato de comida e em tudo o que ele envolve. Não vou entrar em detalhes, mas lembro aqui o que se tornou uma espécie de mote do Fórum Social Mundial lá no seu início, começo do novo século, com a ajuda do ativista francês, o Bové: “Não à macdonilização da comida!”. Na sua esteira, descobri o movimento “Slow Food”, surgido na Itália contra o “fast food”, símbolo maior da globalização em nossos pratos e nos modos de comer,  que continuam essenciais para a gente viver, apesar de sua colonização pelo capital ávido de lucros.
Creio que muita gente se incomoda diante da massiva publicidade do agronegócio, que deixou de ser cultura e virou só negócio. Mas, pensemos um pouco mais sobre o que significa o motor que invade aqueles nossos momentos relaxados diante da televisão. “O agro é tech! O agro é pop!” Será mesmo? O problema é a armadilha ideológica e colonizadora aí embutida. A propaganda do agronegócio esconde tudo o que ele significa: alta concentração da propriedade e dos lucros na agricultura, a grilagem de terras, a destruição de florestas, trabalho escravo e conflito social com povos tradicionais e Sem Terra, o trabalho escravo, os transgênicos e o uso de agrotóxicos e por aí vai uma fila longa de agressões socioambientais no produzir, o que pode virar nosso alimento. A propaganda esconde o elementar extrativismo que tal atividade pratica, produzindo as tais “commodities” agrícolas e se justificando por estar “alimentando o mundo”. Viramos um “fazendão” para o mundo, interiorizando e aprofundando um tipo novo de submissão e colonialismo no mundo globalizado do capitalismo neoliberal. O pior de tudo é que tal propaganda esconde e legitima o papel da bancada ruralista na estrutura do poder político no Brasil, um câncer corporativo que transforma a política – um bem público fundamental – em mera mercadoria e ameaça de morte a democracia, que já está na UTI. No meu modo de ver, estamos diante de uma grande derrota em termos de imaginários, visões, valores e destinos, derrota hegemônica, enfim. Mesmo a leva de governos progressistas na América do Sul se rendeu ao agronegócio extrativista como forma de nossa inserção no mundo. O desafio de “desconstrução” de tal hegemonia e propor alternativas vai exigir muita imaginação, ousadia e determinação, com suor e lágrimas.
Aprofundando as minhas reflexões, cheguei a uma entrevista que Raúl Zibechi que põem no centro de nossos desafios o extrativismo como modelo econômico, político, social e cultural a ser enfrentado. É nas lutas de resistência ao extrativismo que se encontra o maior potencial de transformação do que temos hoje diante de nós, pensando o futuro com democracia, justiça e sustentabilidade socioambiental. É nelas que precisamos buscar inspiração e radicalidade. Aí voltamos ao nosso prato de comida e à cultura alimentar. Há um elo fundamental entre a luta contra o negócio extrativista, agrícola, mineral, energético, de populações em territórios concretos, e nós todas e todos que vivemos e dependemos do modelo extrativista. O nosso futuro e das novas gerações nos impõem agir deste aqui e agora. Com nosso gesto de “politizar” a comida podemos conquistar corações e mentes para a causa de democracia com sustentabilidade num mundo novo.
Rio, 15/01/18

Tradução »

jepe500

slot resmi

slot

slot dana

slot zeus

slot

rejekibet

88id

jkt8

slot pg

jayaslot

slot88

oppo500

toto slot

slot777

slot maxwin

jayaslot

slot maxwin

slot mahjong

slot

slot

INK789

slot zeus