Por Tauan Satyro, pesquisador do Ibase
A intolerância religiosa segue em trajetória de crescimento no Brasil, consolidando uma tendência preocupante nos últimos anos. Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), reunidos a partir das denúncias registradas no Disque 100, mostram que, entre 2021 e 2025, o número de casos aumentou 366%. Apenas no último ano, foram contabilizadas 2.723 denúncias — um crescimento de 10% em relação a 2024. O levantamento também revela uma concentração significativa dos registros em alguns estados. São Paulo lidera o número de denúncias, com 663 ocorrências, seguido por Rio de Janeiro (435), Minas Gerais (321) e Bahia (199).
A análise desses dados evidencia ainda que as religiões de matrizes africanas são as principais vítimas desse tipo de violência. Ao excluir os registros em que a religião da vítima aparece como “não identificada” ou “não sabe”, restam 658 casos, dos quais 468 — o equivalente a 71% — envolvem adeptos da umbanda, candomblé ou outras tradições afro-brasileiras. Quando se observam apenas as denúncias em que a vítima se identifica especificamente como umbandista ou candomblecista, o número chega a 430 casos, representando 65% do total.
Tais números são especialmente alarmantes quando confrontados com os dados do Censo do IBGE de 2022, segundo os quais os adeptos dessas religiões correspondem a apenas 1% da população brasileira. Ainda assim, mesmo compondo um grupo minoritário, seguem como o principal alvo da intolerância religiosa no país — reflexo de um processo histórico de perseguição às tradições e culturas de matrizes africanas, profundamente marcado pelas heranças do colonialismo.
Outro aspecto relevante é que a intolerância religiosa raramente se limita à violação do direito à liberdade de crença. Na prática, ela costuma vir acompanhada de outras violações de direitos fundamentais. Em janeiro de 2026, por exemplo, foram registradas 199 denúncias no Disque 100 relacionadas ao tema, que, juntas, envolveram 375 violações de direitos.
Diante desse cenário, torna-se evidente a necessidade de tratar a intolerância religiosa com a atenção e a seriedade que o problema exige: uma violência presente no cotidiano da sociedade brasileira e que demanda a formulação de políticas públicas efetivas de enfrentamento. Mais do que uma questão de liberdade religiosa, o combate à intolerância deve ser tratado como parte da luta em defesa da democracia.
Um país em que pessoas não são livres para escolher e viver sua fé dificilmente pode ser considerado plenamente democrático. Como alerta o filósofo Karl Popper, ao formular o paradoxo da tolerância, não se pode tolerar o intolerante: é legítimo — e necessário — reagir a discursos de ódio e a práticas que promovem exclusão, violência e a violação de direitos fundamentais. Não agir contra essas ameaças é, na prática, permitir que a própria democracia seja corroída.


