Cândido Grzybowski

Sociólogo, diretor do Ibase

Dia 8 de março, Dia Mundial das Mulheres. Parabéns a todas! Além de reverenciá-las neste dia, o que cabe a nós, homens, fazer? Decididamente, neste modelo de civilização patriarcal e machista, não fomos educados para reconhecer e respeitar a igualdade na diferença entre mulheres e homens. Estamos sendo levados a nos confrontar com um princípio fundamental assim na marra, diante da insurgência feminina. Pensando com os meus botões, não sei se existe o dia dos homens. Provavelmente, não temos um dia específico porque todos os outros 364 dias são nossos por costume ou, melhor, devido à lei pétrea do patriarcado e do machismo, que domina as estruturas sociais e nos enquadra em relações de gênero. Pior ainda para as mulheres quando tudo isto se combina com racismo, como é o caso no Brasil e na maioria das sociedades capitalistas na atualidade.
Tudo parece conspirar contra a emancipação social das mulheres: a família, a comunidade de vizinhança, as Igrejas, os partidos e o poder político, as relações de trabalho e emprego, as instituições em geral. Apesar dos enormes avanços ocorridos desde o começo do século XX até aqui, as estruturas sociais geradoras de dominação e de desigualdade contra as mulheres pouco mudaram. Renova-se e persiste a prática da violência contra as mulheres, com agressões físicas e assassinatos. No momento, quando ganha força pelo mundo uma onda de intolerância com a afirmação da diversidade de gênero, de identidade e de etnia, autoritária e conservadora, voltam todos os tabus machistas e discriminatórios que imaginávamos contidos.  No Brasil do governo Temer – composto por forças políticas golpistas, patrimonialistas e oportunistas, homens brancos, machistas e racistas -, com a sua agenda de restauração do domínio total dos interesses dos “donos de gado e gente”, com uma pauta de desconstrução de direitos e da democracia em nome da “ordem e progresso”, criou-se um enorme espaço para iniciativas contra os avanços obtidos pelas mulheres.
Mas que vitalidade de resistência e insurgência social, cultural e política estão demonstrando os movimentos de mulheres entre nós e pelo mundo! Foi fantástica a manifestação ocorrida recentemente em Nova Iorque. No Brasil, na resistência política contra o golpe e contra o governo Temer, destaca-se o protagonismo das mulheres. Hoje, dia 8 de março, Dia Mundial das Mulheres, promete ser um dia feminino impactante.
Meu propósito com esta crônica semanal, mais do que analisar os movimentos e conquistas femininas, é refletir sobre algumas questões de fundo que elas trazem para nós todas e todos juntos.   Minha leitura tem por trás o reconhecimento que fazemos parte de uma mesma humanidade, comungando a mesma vida e o mesmo planeta, entre nós e com todos os seres vivos. Bem, esta é uma visão e uma posição, que penso ser compartida entre as e os que nos guiamos pelos mesmos princípios e valores éticos de liberdade, igualdade, diversidade, solidariedade e participação. Assumo a minha reflexão como um diálogo entre quem sonha e busca modos de bem viver, tendo no centro os comuns, com justiça e sustentabilidade, alternativos ao capitalismo machista, racista e colonialista, destruidor da base natural e concentrador de riquezas em poucas mãos, em escala hoje global.
A primeira questão de fundo é sobre a emancipação social e política. As lutas pela liberdade e igualdade, contra a exploração e dominação, são constitutivas das sociedades, algo permanente na história da humanidade. O processo histórico revela que o problema não está nas lutas, em si, mas na persistência de formas de domínio e de desigualdade, que se reproduzem em novas estruturas e com outras características. Por isto, na história, muda o modo como pensamos a liberdade e a igualdade e, sobretudo, para quem. Mudam também os sujeitos protagonistas das lutas emancipatórias e contra quem. Registre-se aqui o fato que a estrutura condiciona a história, mas não gera os sujeitos coletivos protagonistas.  Estes se fazem na luta e pela luta, gerando identidades, propostas, organizações, com movimentos e estratégias próprias.
Trago isto para pensar a emancipação social hoje.  Ainda é forte em toda a esquerda a posição que atribui o protagonismo ao proletariado e, de modo mais amplo, aos que trabalham e vivem do seu trabalho. Sem dúvida, poderosos movimentos proletários surgiram no seio da sociedade capitalista desde a revolução industrial e contribuíram nos avanços em termos de emancipação social e política. Mas eles não protagonizaram todas as lutas no seio do capitalismo. A própria evolução do capitalismo, sobretudo com a globalização do neoliberalismo, deslocou as lutas pelo planeta. Mais, muitos outros protagonismos surgiram dentro da sociedade capitalista e contra ela, até com mais radicalidade. O eurocentrismo predominante na esquerda até hoje dificulta reconhecer e avaliar a importância e o significado das lutas protagonizadas pelos movimentos feministas contra o machismo e patriarcalismo, pelos movimentos antirracistas, anticoloniais e dos povos indígenas e tribais em defesa de suas culturas e territórios.
Reconheço que tivemos grandes avanços no pensar e no ativismo teórico, sobretudo nas últimas décadas. Testemunho um marco ocorrido com a emergência do Fórum Social Mundial. Foram as mulheres desde o começo, e depois os indígenas e os favelados também, que mais contribuíram para que no Fórum os protagonismos a priori na luta pela emancipação social e pela transformação do capitalismo fossem postos em questão e uma nova cultura política de valorização radical da diversidade começasse a criar raízes fortes, de meu ponto de vista.
Ainda sobre este ponto, como ativista e pensador homem, gostaria de ressaltar a requalificação da concepção da emancipação social, política e cultural que decorre daí, sobretudo das propostas das mulheres. Elas elaboram de forma nova e radical a ideia de dominação que vai além do trabalho pois trata-se de dominação dos próprios corpos, pelas práticas, culturas, poderes, leis e tribunais. Isto é central no feminismo e, na sua visão e análise, perpassa toda a estrutura social, pois coloca o dedo nas relações de gênero, que qualificam até as relações de trabalho e exploração. Isto traz a questão com força para a cama e a casa, para o nosso convívio entre mulheres e homens, crianças, jovens, adultos ou velhos. Mas, na outra ponta, vai ao âmago do próprio capitalismo, que deu roupagem nova ao domínio e exploração das mulheres, uma espécie de dupla exploração, a dupla jornada de trabalho.
Num certo sentido, eu me considerava um cidadão emancipado e convicto do que se deveria fazer e com quem se aliar para transformar isto tudo. Hoje, a dúvida se instalou em mim, criativa e oportunamente. Será que sou emancipado ou, sob o manto da emancipação social e política, pratico o domínio sobre as mulheres? Será que pode existir emancipação cidadã sem ser para todas e todos? Teoricamente, tenho clareza que não. Praticamente, vejo que emancipação é um processo e uma tarefa permanente para a cidadania ativa. Para avançar hoje, só se aliando às lutas emancipatórias que se configuram mais radicais do que a minha, como das mulheres, dos que sofrem com o racismo, dos indígenas. Para mim, qualquer iniciativa de reflexões de alternativas democráticas radicais ao capitalismo hoje precisa ter no centro uma questão desta natureza.
A minha segunda questão de fundo que extraio dos movimentos das mulheres é o cuidado. Se hoje estamos falando sobre o cuidado como pilar de um novo paradigma civilizatório devemos isto particularmente aos movimentos feministas. O cuidado é uma tarefa que sobrecarrega as mulheres no espaço doméstico.  Cuidar das filhas e filhos, doentes, idosos, até do marido, fazer a comida e limpar a casa, é uma tarefa atribuída às mulheres. É o tal trabalho não reconhecido e não pago na nossa sociedade (muito mal pago e carregado de preconceitos quando feito por empregada doméstica), no entanto fundamental. Na verdade, o cuidado é a condição fundamental da vida, de todas as formas de vida, do próprio planeta para manter e reproduzir a integridade de todos os seus sistemas ecológicos.
Uma questão fundamental em termos de alternativas ao capitalismo, pela emancipação de todas as mulheres e junto de nós todos, homens, é por o cuidado na base da economia e em toda a nossa reflexão sobre princípios e valores que devem orientar as relações e estruturas da sociedade para o bem viver e a sustentabilidade. Isto implica numa verdadeira revolução no modo de ver e pensar o futuro a ser construído. Com o cuidado vem em primeiro lugar os comuns, os bens naturais e criados que devem ser de todos e cuidados por todos como comuns. Com o cuidado vem o compartilhamento, pois trata-se de cuidar para o bem estar de todos. Ainda com o cuidado vem a convivência, o gerir e compartilhar estando juntos. Enfim, isto nos leva a reelaborar e requalificar o que significa o socialismo democrático, em última análise.
Termino aqui esta crônica, um parto um tanto sofrido (olhe eu, homem, falando em um parto meu!), mas feito como um pequeno tributo para as grandes mulheres que me cercam e me inspiram, em casa, no trabalho e no ativismo político e social. Obrigado mulheres!
 
Rio, 08/03/17

Tradução »