Nós e as mudanças geopolíticas em curso

Menina explora mapa-múndi da mostra “A Terra Vista do Céu”, do fotógrafo Yann Arthus-Bertrand | Praça Floriano, Cinelândia. Maio, 2012 (Foto: Adriana Paiva)

Cândido Grzybowski
Sociólogo, do Ibase

Nestes dias de Copa do Mundo de Futebol, com todos os recursos de imagem da televisão, vivemos uma experiência de estarmos nos lugares em que vamos levando as nossas vidas e, ao mesmo tempo, sermos parte de um mundo muito diverso. Fico imaginando quantas crianças vasculham os velhos mapas escolares ou pesquisam pelo celular para saber algo mais sobre os países que as seleções representam e aqueles jogadores de nomes estranhos. O bom é que os jogos de futebol são disputas com base em regras muito simples, de respeito mútuo da diferença e de valorização do trabalho coletivo e criatividade. A gente pode não gostar de assistir as partidas, mas aquela vibração de jogadores e torcidas ou tristezas e lágrimas, no caso de derrotas, são contagiantes e nos passam a fundamental sensação de que somos iguais, apesar de nossas línguas, cores de altos e baixinhos, países pequenos e grandes, parte de uma maravilhosa humanidade em sua diversidade.

Porém, enquanto isto, algo mais fundamental que está ocorrendo nas relações internacionais e no interior das sociedades nacionais parece fora do foco das câmaras, dos jornalistas investigadores e do interesse da grande mídia. O fato é que estamos caminhando a passos largos mais em direção à barbárie do que para um Planeta sustentável, capaz de dar condições de bem viver a todas e a todos que o compartimos como nosso grande bem comum. Algo se noticia sobre aquele estilo Trump de fazer política. Desta vez, o assunto é a separação violenta de crianças de seus pais imigrantes aprisionados. O caso ganhou espaço como causa humanitária. Afinal, de qualquer ponto de vista, é um absurdo e uma afronta a princípios elementares da vida em coletividade.  Mas, porque não se associa isto literalmente ao fascismo e às suas políticas sistemáticas de segregação racial?

Estamos vivendo um mundo nada clamoroso como os jogos da Copa do Mundo podem estar passando. Estamos diante de uma mudança geopolítica daquelas que, até hoje, provocaram as maiores guerras mundiais. Jogos podem ser realizados, dando uma aparente sensação de trégua, como foram as Olimpíadas em Berlim, já sob o regime de Hitler. Ou como a Copa do Mundo de agora, na Rússia, com 18 anos de domínio absoluto do Putin, enquanto no front das relações internacionais impera a maior tensão. Ou, como na nossa Copa das Confederações, de 2013, quando as ruas foram tomadas pela cidadania, nas maiores manifestações no período da democratização.

Por estar fora da mídia, não quer dizer que o problema real não ocorra. A não percepção e a falta de debate mais amplo a respeito está no que nos é relatado sobre o que acontece, na versão pública sobre isso. Com razão, deixamos de acreditar nos fatos, pois eles fazem parte do que Noam Chomsky qualifica como descrédito nas instituições.Vivemos inundados por fake news, sejam boatos ou propagandas enganosas. Assim, pouco ou nada se noticia entre nós sobre a grande disputa geopolítica, com a perda de hegemonia política dos EUA (como força militar dotada de arsenal atômico ninguém se iguala a eles) e a rápida re-emergência da China em aliança com a Rússia e, de algum modo, a Índia. Trata-se de uma recentralização do mundo, em termos populacionais, territoriais e geográficos, algo que alguns já definem como a hegemonia da Eurásia. O pior é que a disputa é sobre quem pode liderar a etapa de total barbárie do capitalismo e de domínio pelas grandes corporações financeiras, não de possíveis alternativas a isto tudo.

Bem, como brasileiros e vivendo num Brasil em processo de desagregação como nunca visto, perdemos sonhos e rumos, esta é a verdade. O golpe foi perpetrado contra a nossa frágil democracia, de buscas participativas em termos de cidadania e de ensaios de algumas políticas um pouco mais inclusivas, sem grandes mudanças na excludente estrutura social brasileira. Ele está se revelando como uma espécie de assassinato político da possibilidade democrática entre nós. Diante disto, na atual conjuntura, nos faz falta aquele entusiasmo cidadão pela disputa eleitoral. Na minha avaliação, predomina um senso comum de que nada vale a pena. O problema é que, pela formalidade institucional, as eleições decidem, mesmo sem decidir de fato. Ou seja, precisamos estar preparados para uma crise longa, perigosa, de mais indefinições do que certezas.

O pior de tudo é que nos foi jogada no colo pelo golpe uma agenda fora do contexto. Podíamos não estar totalmente de acordo com a opção estratégica feita no período petista de uma aliança que nos tornou parte dos BRICS. Num mundo que caminha ladeira abaixo em termos multilaterais, os BRICS não eram uma alternativa de transformação, mas algo melhor do que o alinhamento automático aos EUA. Agora, com o governo golpista do Temer, estamos totalmente dependentes de Trump, que nada quer do Brasil a não ser a sua subordinação aos interesses estratégicos norte-americanos. O governo golpista revive, em novo contexto, a opção feita por F.H.Cardoso – o crítico da teoria de dependência, é bom lembrar – de alinhamento subordinado à globalização neoliberal sob hegemonia americana. Tudo o que o Governo Temer está fazendo é nos submeter a uma lógica de total domínio mundial do capital financeiro, do lado dos EUA do maluco Trump! Como brasileiro de 73 anos, acho que não merecia algo assim. Mas, sempre existe um mas, viver é enfrentar desafios sempre novos. Vamos lá.

O refresco da Copa do Mundo mostra que o poderíamos viver de um modo diferente, mais de bem, cada um no lugar no mundo em que nasceu, podendo migrar. Afinal, o Planeta humano tem maravilhas que valem a pena compartir entre todas e todos. Mas aquele nosso cantinho, aquele lugarzinho, também tem seus encantos e sempre podemos compará-lo com todos os cantinhos do mundo. O que nos falta é criar uma “vontade política” hegemônica de valorização da maravilhosa e sustentável diversidade humana em interação com a diversidade da biosfera. A Copa do Mundo poderia ser uma saudável competição entre jogadores, línguas, culturas e, por que não, modos de comer, cantar e dançar. Tudo em respeito adorável ao que a natureza em sua integridade nos dá de graça.

Rio, 25/06/2018