Legados e futuros

Athayde Motta
diretor executivo do Ibase

Já faz quatro meses que assumi o cargo de diretor executivo do Ibase. Devo então, em primeiro lugar, me desculpar por não ter me apresentado antes. É que o mundo das ONGs demanda muito e a conjuntura, como vocês sabem, não está nada fácil. Mas vamos lá! Esta mensagem para o site do Ibase é publicada uma semana depois do aniversário de 20 anos da morte de Betinho, um de nossos fundadores e personagem único da história do país. Foram três dias intensos, com o espírito alegre que Betinho sempre invocava para si e para quem estava a sua volta. Durante a maratona, respondi várias vezes à imprensa as mesmas duas perguntas. Qual o legado maior de Betinho e do Ibase? O que ele estaria fazendo hoje, diante da destruição do Brasil?

Não é difícil entender porque há tanto interesse nessas questões. Olhamos mais para o passado em busca de alguma dica sobre como agir no presente justamente quando o presente parece estar além de quaisquer expectativas. Uma boa resposta sobre o legado está na história que Sebastião Soares, conselheiro e amigo de todas as horas de Betinho e do Ibase, me contou durante as celebrações da semana passada. Nos idos de 1983, com a ressaca após a derrota da Emenda Dante de Oliveira no Congresso Nacional, toma corpo o movimento das Diretas Já. Betinho e o Ibase contribuíram com essa campanha formulando o “Projeto Emergência”, publicado em forma de livreto sob a tutela de Teotônio Vilela, que morreria em novembro daquele mesmo ano. Na contracapa da publicação (foto em destaque), aparecem as quatro dívidas que a sociedade brasileira precisava enfrentar naquele momento: a externa, a interna, a social e a política. O primeiro parágrafo da introdução dizia, “O Brasil vive uma crise social, econômica e política de enormes proporções. O governo…está distante da nação. Por isso mesmo, sua ação tem gerado problemas e não soluções para a sociedade brasileira. É hora de todas as forças vivas da Nação se mobilizarem organizadamente na busca de soluções urgentes”. É como se lêssemos sobre o presente em um passado onde a construção de uma cidadania ativa e da democracia estava na agenda de todos e todas.

Essa talvez tenha sido a primeira contribuição de peso de Betinho e do Ibase para um movimento da sociedade que viria a adquirir dimensões históricas. E muitas outras contribuições viriam ao longo dos 35 anos do Ibase. Ser uma parte ativa dessa sociedade civil organizada, dinâmica e sempre ávida por mudanças é o que fazemos de melhor, sempre em parceria com milhares de outras ONGs e movimentos sociais espalhados pelo Brasil, todos atuando como timoneiros e timoneiras de um barco que está sempre em construção porque reflete anseios por direitos múltiplos e variados. Já aprendemos que derrubar timoneiros não constrói a luta. É o compartilhar do timão entre movimentos e agendas diversas e mais consolidadas e as novas aspirações que chegam a todo o momento que nos faz mais fortes e melhores seres humanos.

Assim como a crise atual não é única do Brasil, a sociedade civil de outros países também se questiona em um movimento de exaustão e renovação em busca de saídas para o conservadorismo que se espalha pelo planeta. É uma pena que não conheçamos melhor esses esforços. Para lhes dar um exemplo, as organizações Democracia en Red  e Asuntos del Sur, ambas na Argentina, acabam de lançar uma coletânea que pode ser baixada pela internet com as “agendas de inovação política da América Latina“. São várias experiências de organizações da sociedade civil da região empenhadas em renovar a política. Em outro exemplo internacional, acontece no Reino Unido nesse momento o “Civil Society Futures“, um amplo diálogo nacional sobre os desafios que a sociedade civil britânica enfrenta hoje e sobre como deve se preparar para os que certamente enfrentará no futuro. De nossa parte, a Associação Brasileira de ONGs (Abong), em parceria com algumas de suas associadas, organiza em agosto o seminário nacional “A agenda das resistências e as alternativas para o Brasil: um olhar desde a sociedade civil“. Betinho estaria participando desse e de outros encontros parecidos, dos setores mais variados, estimulando uma conversa sem sectarismos e convidando-se para as mais variadas mesas onde o respeito e a abertura ao diálogo fossem o prato principal.

É uma honra e um prazer fazer parte dessa história uma vez mais, e, dessa vez, em condições mais que especiais. Comecei no Ibase como estagiário há 30 anos e, após passar por várias instituições, retorno como diretor executivo em parceria com Rita Correa Brandão, diretora adjunta. O Ibase sempre esteve atento à questão da diversidade. Já participaram de sua direção mulheres como a feminista Sonia Correa e a historiadora Dulce Pandolfi. O reconhecido líder do movimento de favelas Itamar Silva foi o primeiro negro diretor da organização. Mas, na composição atual, é a primeira vez na história do Ibase que um negro ocupa o cargo de diretor executivo e uma mulher negra ocupa o cargo de diretora adjunta. Meus antecessores foram o próprio Betinho e Cândido Grzybowski. Não há como medir o tamanho do desafio ou minimizar sua importância. O Brasil já discute como ampliar a igualdade racial e de gênero e promover homens e mulheres negros a postos de liderança no setor privado, mas esse é um debate incipiente entre as organizações da sociedade civil e do terceiro setor. Em outros países, questiona-se o fato de que aqueles que são o público alvo das ações desses setores sejam tão diferentes daqueles que comandam tais ações. A D5 Coalition, nos EUA, é um entre vários exemplos naquele país. No Reino Unido, a Inclusive Boards, ou Conselhos Diretores Inclusivos, tem por objetivo dobrar o número de homens e mulheres negros e de outras minorias nos conselhos e cargos de liderança das ONGs britânicas. Mais uma vez o Ibase se destaca pela coragem em inovar nesse tema, dessa vez fazendo de si um exemplo. Eu e Rita estamos aqui para aproveitar a chance de debater esses e outros assuntos com vocês. Vamos conversar sobre o Brasil que queremos construir juntos.

Um grande abraço.