A democracia como valor, utopia e método

Cândido Grzybowski

Sociólogo, presidente do Conselho do Ibase

Ainda que a situação política do país traga incertezas sobre que rumos seguir, não há outra possibilidade a não ser de reconstruir o caminho democrático. Aqueles(as) que, como eu, conheceram de perto a repressão da ditadura militar não podem desistir de utopias e convicções forjadas ao longo de nossas vidas. Em vez disso, é preciso mais do que nunca buscar inspiração para recomeçar.

Penso que a questão central é, ainda, a reinvenção da democracia como valor, utopia e método. É menos uma questão de ganhar o poder político e militar do Estado ou mesmo freá-lo. A prioridade é e será, acima de tudo, ganhar corações e mentes para novos paradigmas e de construir hegemonia – com tudo que isso significa para o bem viver comum, para o imaginário mobilizador no seio da sociedade civil, para os direitos iguais a todas e todos e para a cidadania ativa como condição.

Mas por onde recomeçar uma tarefa determinada e paciente, de tão longa travessia? Como tratar a colonialidade que continua a nos determinar como povo subalterno num mundo globalizado, de um capitalismo voltado aos que fazem parte do 1% extremamente ricos? Como criar um novo e hegemônico clima cultural, ativo e propositivo, adotando modos de se organizar democraticamente na busca de bem viver para todas e todos? Como tirar partido de nossas múltiplas diversidades criativas para fazer face ao fascismo e à barbárie? As respostas não estão dadas. Será preciso descobri-las agindo, com muito ativismo cívico, político e cultural.  Devemos nos reconectar com as cidadanias vividas nas periferias e nos imensos territórios de segregação e sacrifício de brasileiras e brasileiros. Precisamos estar e buscar juntos, construir juntos. Trata-se também de disputar estrategicamente e de mãos dadas o espaço do imaginário público, propondo agendas incontornáveis de liberdade, igualdade e direitos com uma visão ecossocial de interdependência entre nós todos e com a natureza. É urgente que passemos a usar de forma mais inteligente as novas mídias sociais, como espaços de disputa de hegemonia democracia ecossocial. Tal opção estratégica se impõe para tanto para movimentos sociais como para organizações de cidadania ativa como o Ibase.

Mais do que lamentar os votos úteis majoritários que recebeu Bolsonaro, conferindo-lhe legitimação eleitoral, devemos avaliar a situação política criada com a nossa derrota política e cultural. Venceu, como proposta para o país, um ainda difuso projeto fascista de poder político excludente, para seguidores fanáticos mais do que cidadãos convictos de seus direitos iguais. A proposta de Bolsonaro não vai ao encontro de um projeto político e cultural agregador.  O presidente eleito e seus seguidores, gostemos ou não, souberam captar o sentimento difuso no seio da sociedade contra o sistema político e de combate à corrupção, com um discurso de intolerância e repressão a quem se opor. Precisamos enfrentar isso como parte de nossa resistência e, sobretudo, como uma nova agenda política e cultural propositiva de democratizar a democracia. O campo estratégico de tal disputa está no seio da sociedade civil, nos novos espaços da informação e comunicação, na construção de filosofias e imaginários mobilizadores. Nossa tarefa prioritária de cidadania não está nas instituições políticas de poder, pois antes de sermos derrotados no voto, perdemos em utopia mobilizadora, na cultura, na agenda pública, no espaço da comunicação.

Outro imaginário agregador, que cimente vontades coletivas, sem olhar demais para trás. Precisamos disputar o sentido de sermos uma nação chamada Brasil na atualidade, sem qualquer discriminação. Mais, precisamos pensar em soberania popular e democrática, deixando de lado a ideia de soberania nacional das elites predadoras. Precisamos de uma construção política e cultural capaz de por no centro a incontornável agenda de transformação das relações estruturais criadas para a expansão das grandes corporações econômicas e financeiras.

Para resistir ao que está vindo, só nos resta enfrentar nossas fragilidades, antes que seja tarde. A história não acabou e nem temos o monopólio de determinar como será. Portanto, construamos propostas que inspirem a nossa ação de resistência e nos apontam um futuro, um Brasil de bem consigo mesmo e bom para o mundo diante da barbárie destrutiva que está se impondo. Não podemos esperar.