Conviver com a barbárie no cotidiano

Fotos de Editorial J (flickr.com/photos/editorialj)

Cândido Grzybowski
Sociólogo, do Ibase

É incrível a capacidade humana de se adaptar às piores condições e de ir levando a vida. Tenho lido reportagens, relatos e entrevistas sobre o drama de migrantes e refugiados de desastres ambientais e de guerras. Vejo todos os documentários e filmes que posso a respeito de tais tragédias e das barreiras de toda ordem que enfrentam na busca de um novo lar, além do sofrimento de todo tipo pelas perdas e rupturas com os seus territórios e suas comunidades de origem. Visitei o museu que documenta a destruição de Varsóvia na II Guerra Mundial, um campo de concentração nazista no Leste da Polônia ocupada, com um pavilhão de sapatos dos milhares assassinados e a câmara de gás da morte. Tive a oportunidade de viver a incrível experiência no museu sobre o Holocausto no centro de Berlim, com aquele labirinto para a gente se sentir sem rumo e as fotos, muitas fotos, de famílias inteiras dizimadas. Tento entender estes dramas humanos, mas não dá. Afinal, como tanta maldade entre humanos é possível? Os princípios e valores éticos comuns de igualdade e dignidade humana, que nos dão sentido de pertencer a uma mesma humanidade, podem ser ignorados em certas situações?

Estas reflexões me trazem para a situação aqui em nossa cidade, o Rio de Janeiro, e para o Brasil da miséria escancarada nas ruas e da intolerância com pobres, da violência e chacinas, dos assassinatos diários, do racismo explícito e do machismo violento. Estamos convivendo com as mais diversas formas de barbárie no cotidiano e isto parece não nos abalar, seguimos a vida. Por que chegamos a isto, com tão pouca indignação diante de tanta falta de humanidade?

Segundo certa mídia dominante, estamos em guerra. Guerra de quem contra quem? Disputa política de que projeto? Claro que não é isto. Nada se fala da estrutural e vergonhosa desigualdade e do racismo, machismo e patrimonialismo que nos moldaram como sociedade das múltiplas exclusões, periferias e violências, do não reconhecimento de direitos de cidadania aos pobres e despossuídos de tudo. A tal “guerra suja” de polícias contra os bandos de traficantes é uma forma de ação armada contra populações pobres, cujo crime é ser o que são: pobres, negras, faveladas e de periferias urbanas. O crime do tráfico de drogas é, antes e mais nada, um ato repressivo do Estado, que criminaliza os vendedores e consumidores de entorpecentes. Um Estado que nem tenta esconder o seu caráter de poder excludente e sem legitimidade democrática, além de falido.

As nossas ruas, praças e parques estão tomadas pelas pessoas já despossuídas de tudo, sem horizonte maior do que sobreviver no dia a dia das migalhas que lhes deixamos. Este, no meu modo de ver, é o maior crime humanitário deste governo golpista do Temer, corrupto, sustentado por parlamentares em nada melhores e seus asseclas nas várias instâncias do poder executivo, legislativo e judiciário, de cima abaixo da Federação Brasil. Que contraste entre malas recheadas por milhares de reais provenientes de propina e a situação de pessoas que nos cercam no cotidiano, mendigando moedas de troco!

É triste ver as pessoas que dormem jogadas por aí. A gente vê e fica sem saber o que fazer. Será que aguentaríamos passar por experiência igual? Quantos sonhos, desejos, amores e carinhos frustrados! O que uma mendiga ou um mendigo pensa de nós, da sociedade que construímos, da humanidade? Qual é a sua ideia do amanhã? Existe bem comum para esta gente? A segregação entre nós e eles e elas é tão patente e tão presente que se torna até normalidade, como se nada tivéssemos a ver com isto.

A questão de fundo é de ordem da cidadania e da democracia. Afinal, com tanta gente tendo negados seus direitos básicos de cidadania, podemos nos sentir e viver como se cidadãos fôssemos? Cidadania é uma relação política compartilhada. Se não é reconhecida e vivida como uma condição de igualdade na diferença, deixa de ser cidadania e vira privilégio de classe. Neste sentido, cada mendiga e cada mendigo põe em questão nossa própria cidadania. Na verdade, a mendicância no cotidiano de nossas cidades é um sinal de desconstrução da cidadania como relação política e da democracia como modo de conviver em nossa igualdade na diversidade. Está nas ruas e praças a mais contundente demonstração de desmanche da democracia brasileira.

Que fazer? Indignar-se e reagir! Parece pouco, muito pouco. Mas nem tal indignação estamos demonstrando com a força que o momento exige. Milhares vivem deserdados em nossas cidades, verdadeiros perdidos na selva urbana. As mortes se multiplicam e nem por isto nos abalamos. Há um verdadeiro extermínio de jovens negros e pobres em curso nas favelas e periferias de nossas cidades. Será que já fomos tornados bárbaros sem perceber? Ou este é o modo de ser de nossa sociedade, coisa que nos negamos a enxergar e enfrentar? Onde guardamos os valores e princípios básicos do convívio humano? Podemos detestar os governos que temos, mas precisamos libertar a ética e o senso profundo de humanidade de dentro de nós mesmos, adormecida pela trágica política, social e econômica do cotidiano. Assim como está não podemos ficar, pois isto é negar a própria vida e a condição de cidadania ativa.

Rio, 28/08/17