Quase gente grande

Mônica Francisco ficou surpresa quando ouviu a demanda do pequeno João Miguel, filho da presidente da Associação de Moradores da Barreira do Vasco, então com 4 anos de idade. Ele queria que as crianças também fossem ouvidas no programa Morar Carioca. Queria apresentar seus desejos e seus sonhos para o local onde mora.

Rosana Queiroz e Mônica Francisco, da equipe do Ibase.

 

A equipe do Ibase no local, onde Mônica é supervisora, não ficou pra trás. Começaram a pensar uma metodologia adequada para ouvir e registrar as falas dessa parcela significativa da população da favela. Foram realizadas, no dia 11 de agosto, duas oficinas: uma com crianças de 7 a 10 anos e outra com adolescentes de 12 a 17. No entanto, o encontro dos adolescentes contou apenas com meninos de até 15 anos.

A dinâmica, chamada “Imaginando a Barreira: ampliando a percepção do sonho”, foi um mix das metodologias de outras atividades do Morar Carioca Cidadania Ativa, pensada pelas agentes comunitárias, supervisora e coordenadores do programa pelo Ibase. As agentes fizeram uma “árvore dos sonhos” em um mural, em que as folhas eram acrescentadas pelas crianças, na oficina da manhã, ou pelos adolescentes, na oficina da tarde. Os participantes podiam escrever ou desenhar seus desejos e, depois de montada a árvore, cada grupo discutiu sobre o que foi colocado.

Segundo Mônica, foi muito interessante ver como as crianças reproduziram algumas situações colocadas pelos adultos, como a divisão entre a Barreira do Vasco e a comunidade Uga Uga. A ocupação que leva o nome da antiga novela global fica dentro da Barreira, mas tem condições precárias de infraestrutura e há uma divisão clara entre os moradores. Na oficina infantil, as crianças se dividiram em duas mesas: numa sentaram os moradores da Barreira, em outra, os pequenos moradores de Uga Uga. “Não houve aquela integração. Quando perguntamos o que tinha de ruim, alguns moradores da Barreira responderam que é preciso ‘quebrar o Uga Uga’”, conta a supervisora.

Por outro lado, Camila Coelho, agente local, acredita que a atividade foi válida para que as demandas infantis fossem também colocadas. Os adultos pensam, segundo ela, em questões mais “urgentes”, como as remoções, o saneamento etc.. “Para a criança é mais fácil sonhar”, complementa Mônica. Elas falaram das praças, da necessidade de brinquedos em espaços públicos e, acredite, da limpeza dos banheiros públicos da Barreira. A reclamação veio de uma das meninas da oficina infantil, que ficou apelidada como “Vaninha”, em referência diminutiva à presidente da Associação de Moradores. “Ela disse que não tinha como uma menina usar aquele banheiro”, comenta Camila.

A questão das drogas também foi levantada como um problema local que afeta crianças e adolescentes. A demanda dos participantes da oficina era de que “fossem retirados os crackudos”. Mônica chama a atenção para o fato de que, quando se trata de drogas, as crianças e adolescentes da favela só são vistos quando já estão “dentro” do problema, como usuários ou traficantes. Falta um olhar preventivo.

As atividades foram encerradas como todo mundo gosta: com pipoca, cachorro quente e refrigerante. A turma infantil aproveitou para comemorar o aniversário do idealizador da atividade, João Miguel, que completava 5 anos. Os sonhos das crianças e dos adolescentes da Barreira do Vasco e Uga Uga serão sistematizados e entregues pelo Ibase aos escritórios de arquitetura e à Prefeitura, para que sejam considerados na elaboração dos planos de urbanização do local.