Fidel Castro, a Revolução Cubana e Nós

Cândido Grzybowski

Sociólogo, diretor do Ibase

 

O notícia do falecimento de Fidel Castro, os documentários que estão sendo exibidos e os debates organizados sobre os desafios atuais e futuros para Cuba, me fizeram voltar no tempo – tempo de minha geração – e pensar no que ele significou para a nós. Não tenho nenhuma condição para falar da vida de Fidel Castro ou da história da Revolução Cubana, apesar dos muitos debates no Brasil e exterior que participei a respeito, em geral polarizados por valores e posições políticas prévias de defesa ou de rechaço total, mas sempre muito empolgados. Aliás, o próprio debate público e as posições de partidos e governos sempre foram marcados por tal julgamento posicionado como ponto de partida.  E, pelo que se vê agora na mídia, ainda continuamos assim.

O meu olhar é de uma perspectiva, que assumo com tranquilidade e sem remorsos, de um ativista militante pela justiça social que sempre viu em Castro e na Revolução Cubana inspiração e motivação acima de tudo, apesar de todos os problemas. Engajado como fui e continuo sendo em debates e iniciativas de cidadania, que ligam o local ao mundial, contra estruturas e processos de poder e economia voltados a beneficiar mercados e acumulação, que provocam destruição ambiental e desigualdade social em escala planetária, sou levado a destacar o significado geopolítico de tudo que ocorreu em Cuba no longo período da Revolução até agora. Instiga pensar como foi possível que uma população pequena, numa ilha pequena e sem muitos recursos ter provocado o impacto geopolítico que provocou. O certo é que minha geração, querendo ou não, foi marcada pelo que se irradiou de Cuba, do mesmo modo que carregamos estigmas de ditaduras, alegrias e frustrações com processos de redemocratização e voltamos a nos sentir ameaçados pelos tempos atuais de golpes e retrocessos democráticos.

Por que a Revolução Cubana virou um marco histórico e inspiração? Os anos 50 e, particularmente, os anos 60 do século passado foram do auge da Guerra Fria entre os blocos liderados por EUA e URSS. Ao mesmo tempo, consolidava-se a independência nacional – ao menos em termos formais de Estados Nacionais – das antigas colônias na África e Ásia, marcada em seu nascedouro, importa ressaltar,  pela polarização da Guerra Fria. Na verdade, a polarização contaminava e submetia todas as relações internacionais à sua lógica. A ONU, que surgiu como ideia de união de povos após aquela carnificina da II Guerra Mundial, nunca passou de uma frágil união de governos, dado o poder absoluto do Conselho de Segurança, com cinco potências vencedoras da guerra com poder de veto. Simplificando muito, dá para afirmar que é nesta época que se cria a dualidade de projetos – “desenvolvimento” ou “socialismo”- como as únicas vias possíveis para o futuro dos povo. Na “periferia” de então, com epicentro na América Latina, surge uma escola de pensamento crítico que questiona as estruturas de poder mundial, desde conceituando o “subdesenvolvimento” como produção do desenvolvimento até chegar à teoria da dependência. Com poucos anos de diferença da Revolução Cubana, surge o G77, das nações que afirmavam o seu propósito de não alinhamento com a bipolaridade do poder no mundo e que deu origem a uma terceiro via, o “Terceiro Mundo”. O fato é que as contradições na “periferia” do mundo de então se acirravam e a ideia de transformações profundas, por revoluções ou reformas, encontra terreno fértil no seio de sociedade civil, mesmo frágeis,  de diferentes países.

Num caldo geopolítico assim é que o grupo guerrilheiro comandado por Fidel Castro, com Che Guevara e os demais, derrota o exército de Fulgêncio Batista, ditador de Cuba, um corrupto que se mantinha no poder pela força bruta, mas estrategicamente importante no Caribe para os interesses geopolíticos norteamericanos. Cabe lembrar que Cuba está no “quintal” dos EUA e isto se apresentou como intolerável. Mas o nosso olhar sobre a geopolítica não pode ser limitar ao que isto significou para os EUA (e no lado oposto URSS) em sua escalada para asfixiar Cuba desde os anos 60 até muito recentemente, destacando-se o terrível embargo. O que considero mais marcante é o impacto da Revolução Cubana nos imaginários e movimentos libertários de então. A Revolução de Cuba foi como um destampar de panela de pressão imposta por uma dominação retrógrada implacável de interesses de empresas e do imperialismo americano mancomunados como forças oligárquicas e patrimonialistas locais, em diferentes países, especialmente na América Latina. Mais, Fidel e seus companheiros mostraram que é possível sonhar e buscar mudanças, mesmo nas piores situações políticas. Para sonhadores por justiça social, por toda a América Latina, adolescentes e jovens como eu, sentimo-nos inspirados para ir à luta. Não é por nada que Che Guevara, guerrilheiro na Revolução Cubana, morto em 1967 na Bolívia, lutando por seus sonhos e visões de mundo, é símbolo inspirador até hoje. O exemplo de Cuba mostra que ousadia e determinação política são fundamentais, tanto quanto condições objetivas, para fazer mudanças. Se até hoje sonho e afirmo que “outro mundo é possível”, devo buscar as raízes disto lá nos anos 60, em Fidel e Che Guevara.

O certo é que a Região da América Latina entrou num ciclo de irrupções de muitos grupos guerrilheiros, em muitos países, alguns vitoriosos depois de muita luta como os “Sandinistas” da Nicarágua. Outros geraram um impasse político e só foram resolvidos por acordos de paz após longas guerras civis, como é o caso de Guatemala e El Salvador e, agora, está em curso na Colômbia. Mas, a maioria dos grupos insurgentes em forma de guerrilha foi derrotado. A reação à Revolução Cubana e à emergência de movimentos demandando reformas e revolução, na maioria dos países da América Latina, deu origem a atrozes ditaduras, começando pelo Brasil. Só no Peru, e apenas na primeira fase, sob o comando do general Velasco Alvarado, se instaurou um governo militar promotor de reformas por justiça social, especialmente uma importante reforma agrária. O que se destaca, também, neste quadro sob influência do terremoto geopolítico provocado pela Revolução Cubana, é o caso do Chile. Salvador Allende, um socialista, chegou ao poder pela via democrática. Virou referência para nós. Mas seu governo não chegou ao fim e, por golpe de Pinochet, teve origem a ditadura militar mais sanguinária da região.

Além do que se passava e passou nos diferentes países, cabe destacar que vivemos um horroroso ciclo de ditaduras militares, sem liberdades democráticas, com prisões, torturas, execuções e exílios. Só a Anistia, que tardou mas chegou, mesmo limitada, permitiu a abertura das prisões e a volta dos “sonhadores” que sobreviveram. Mas foi de dentro das sociedades, por ação da cidadania nas trinhceiras de resistência e com novos sonhos, que se criaram as condições de redemocratização nos diferentes países, em ritmos e formas também diferentes. E isto mudou a nós mesmos, pois passamos a defender a democracia como valor e método de transformação social. O certo é que a redemocratização de nossos países permitiu a emergência de um nodo geopolítico novo de governos de esquerda democrática, uns mais e outros menos, que nos permitiu voltar a sonhar com melhores mundos. A eles se juntou a Cuba de Fidel Castro, permitindo o fim de seu isolamento, ao menos em relação à nossa região.

Bem, estamos novamente num fosso, sem horizontes imediatos. A onda da democratização das últimas duas a três décadas se esgotou na Região da América do Sul. Mas os sonhos continuam vivos em meio às ameaças de retrocesso e autoritarismo que assistimos. Precisamos de ousadia e determinação. Fidel Castro morre num momento em que morre mais uma vez o sonho de mudar no aqui e agora. Não que Cuba continue a inspirar. Talvez sua pertinaz resistência no meio da adversidade seja exemplar. Mas resistência só não basta.

Precisamos de um horizonte estratégico e de novos sujeitos para as lutas. Minha geração pode ajudar, mas nossos povos precisam de novos sujeitos coletivos e vozes capazes de gestar um novo imaginário democrático mobilizador para uma nova e radical onda de transformações . O problema é que o mundo como um todo se inclina mais para o autoritarismo e fundamentalismos intolerantes, com racismo, patriarcalismo e xenofobia.  Já vivemos irrupções aqui e lá de pura barbárie. Hoje, com a descontrolada globalização dos negócios nos tornamos muito mais interdependentes e temos uma consciência muito maior de compartir um mesmo e único planeta, a Terra, e a mesma e comum humanidade na diversidade de povos e culturas que temos.

Precisamos de nossos heróis, sem dúvida. Mas os desafios de hoje para lutar por liberdade e justiça socioambiental não são os mesmos do passado. Estamos submetidos à ditadura dos capitais globalizados e aos mercados livres, contra gente, contra a emergente cidadania planetária. Estamos diante de estruturas e processos geradores de brutal desigualdade social, por um lado, e de implacável destruição ambiental na nossa base natural comum de vida, por outro. Regimes subservientes aos ditames das grandes corporações econômico-financeiras, como o nosso, no Brasil, e na maioria dos países da América Latina, exigem uma revisão de visões, análises e estratégias. Precisamos recriar hoje, no aqui e no agora, sonhos e imaginários de novos paradigmas de emancipação social e saber nos organizar e lutar, com ousadia e determinação, pois, como mostrou Fidel Castro, sempre é possível vencer.

 

Rio de Janeiro, 26/11/2016