Carta ao Betinho

Cândido Grzybowski

Sociólogo, diretor do Ibase

betinho1 Rio de Janeiro, 3 de novembro de 2016

Ilmo. Sr. Herbert de Souza

Estrada da Cidadania, Casa dos Heróis, s/n

Universo Invisível

Caro Companheiro Betinho,

Feliz Aniversário! Lembrei de você hoje exatamente pelo seu dia, quando você completaria 81 anos de seu nascimento para a gente aqui no Planeta Terra. Como está a festa? A cerveja daí deve ser o supra sumo comparada a estas daqui “só de cevada, fermento e água”, como a propaganda de uma cervejaria revela. Além disto, pelos pregadores, no Céu não tem dia e nem hora de festa, é só felicidade o tempo todo. Isto é verdadeiro? De todo modo, penso que você não perdeu aquela irresistível vontade cidadã de discutir política a toda hora, numa grande roda de amigas e amigos – que não devem faltar por aí -, com muitas gargalhadas sobre as nossas trapalhadas daqui da Terra.

Escrevo sobre a conjuntura como é possível ver daqui da planície do Rio de Janeiro. Tudo anda muito confuso, com uma crise política e econômica que lembra aqueles fatídicos anos da “década perdida”. Mas a coisa não é só nesta amada terra tupiniquim. Simplesmente chegou a nossa vez de nos sintonizarmos na grande onda conservadora, até explicitamente autoritária e fascista. As grandes corporações capitalistas impuseram ao mundo todo sua lógica neoliberal, de acumular sem nenhum controle. São maiores do que a maioria dos Estados Nacionais. Acaparam o que pode virar mercadoria, destroem sistematicamente tudo e a todos submetem, até alimentando guerras se necessário. A história não se repete, pois a vida é por excelência mudança. Pode, porém, mudar para pior, muito pior. Vendo o que se passa no Brasil e na região atualmente, como parte do mundo, não descarto a barbárie. Só falta o truculento Trump ganhar as eleições nos EUA, com o seu discurso xenofóbico, racista e machista, e botar o dedo no gatilho daquele gigantesco arsenal atômico para a barbárie total se implantar. Já temos guerras fundamentalistas de total extermínio de povos em curso, particularmente no Oriente Médio. Enfim, a miséria e a fome grassam enquanto mega bilionários se locupletam com as rendas de seus investimentos especulativos. Segundo estudos da New Economics Foundation (uma luz nestes tempos de escuridão), 62 bilionários tem mais riqueza do que a metade mais pobre da humanidade! Pode ser aceitável isto?

Não deve ser novidade o que lhe conto. Afinal, daí onde você está tudo pode ser visto com clareza, melhor do que o olhar da gente com um endereço definido num planeta redondo, sendo bombardeado por uma mídia totalmente comprometida com o negócio, ela mesma um grande e venturoso negócio, sem nenhum compromisso com a ética e a informação, com a cidadania e a democracia. Na mais pura verdade, precisamos de outro Betinho por aqui para liderar uma campanha de ação da cidadania contra a fome, a miséria e pela vida, desta vez com dimensões planetárias e eco no seio de todos os povos, dada a interdependência entre estruturas e processos. Nossa necessidade mais urgente é de movimentos de cidadania mundiais para barrar a barbárie e, se possível, promover uma gigantesca transição democrática enquanto é tempo para algo mais voltado para a vida humana, para todas as formas de vida e à própria integridade do Planeta Terra, com uma perspectiva ética de justiça socioambiental e de liberdade, igualdade, diversidade, solidariedade e participação. Esta mensagem sua, deixada como legado para nós que continuamos aqui, precisa ser revitalizada. É o grande desafio democrático que temos no momento.

Betinho, talvez você nem está dando importância para as coisas miúdas da política que estamos vivendo. Sei que, como tudo, um dia passará, pois nada é eterno aqui na Terra. Mas que faz estragos e dos grandes não dá para negar. Nosso Rio de Janeiro, cidade olímpica, está enfeitada, diria maquiada, pronta para ser referência de negócios globais. Ela, porém, é menos cidadã do que poderia ser após 20 anos que se passaram daquele 1996, quando a cidade se candidatou pela primeira vez para as Olimpíadas e você propôs a Agenda Social Rio, com aquelas cinco metas socais combinando com as cinco cores dos jogos. Não foi isto que aconteceu. Ganhamos o direito de sediar as Olimpíadas de 2016 e… deixamos a agenda de cidadania para… sei lá quando. A única coisa certa é que agora vamos ter como prefeito Crivella, aquele da Igreja Universal. O que isto representa? Você pode explicar? Do Estado do Rio é que nada virá, pois nossos governantes tudo apostaram na tão maldita doença de viver de royalties de recursos naturais, ainda mais o sujo petróleo. Os preços estão lá embaixo porque o petróleo faz parte de uma estratégia geopolítica mundial das grandes potências. E a nossa Petrobras se tornou presa do polvo da corrupção. Um bem comum de tal tamanho poderá ainda ser salvo para servir ao país? O Serra, seu amigo na juventude, agora como Ministro de Relações Exteriores de um governo golpista, quer entregar tudo à ganância das petroleiras privadas. Com seus poderes do Além, não tem jeito de você passar uma rasteira “cidadã” no Serra?

Mas a coisa está feia para valer é no governo federal. Você e todos nós que lutamos contra a ditadura temos que conviver agora com um governo golpista, que deslegitimou a soberania popular e destituiu pelo impeachment sem crime o governo de Dilma Rousseff. Acho que você não lembra dela. Na juventude, ela passou anos na prisão, sem ter tido a chance de viver em terras de mais liberdade como você e eu. Bem, ela não é e nunca foi uma ativista como nós. Mas se somou ao processo que, finalmente, elegeu Lula presidente e, depois de dois mandatos, o substituiu no governo. Mulher, digna e coerente com os princípios e valores da esquerda. Mas nunca foi e nem será uma líder do tamanho do Lula. O fato é que as forças conservadoras acharam que a “conciliação de classes” a la PT já tinha ido demais e era chegado a hora de subverter o jogo democrático. Conseguiram, como você deve ter sido informado. O eco da ilegitimidade do Governo Temer repercutiu no mundo inteiro. Deve ter repercutido aí, onde você está. Os gritos de “fora Temer” ecoam em todo lugar. Do Temer é que você não deve lembrar pois até para se eleger deputado pelo centrista PMDB penou nos anos 80, lá em São Paulo. Foi vice de Dilma e se prestou para dar o golpe.

O fato é que o golpismo tem duas caras. Uma expressa naquela figura nada expressiva e até pequena politicamente do Temer, secundada pela miss, sua esposa, encarregada do trato dos pobres e desvalidos. Você sentiu o mesmo mal estar que eu e uma grande porção de brasileiras e brasileiros  ao saber disto? Afinal, isto vai contra à sua corajosa posição contra a fome e a pobreza como questão de cidadania e na mera questão de caridade para ser tratada por “primeiras damas”. A outra cara do golpismo está na sombra. A figura mais eminente é o Ministro Meireles, um conhecido gerentão de finanças e bancos, internacionalista a serviço do neoliberalismo. Os “escondidos” propõem simplesmente a destituição de todos os direitos cidadãos que podem limitar os ganhos de capital. Com o Congresso que temos – hoje com algo em torno de 35 partidos – o negócio de compra de votos funciona e tudo pode ser aprovado, até mudanças constitucionais sobre direitos fundamentais que nos custaram, como você deve lembrar, muita luta.

Enfim, do Governo Federal nada a esperar. Precisamos voltar às trincheiras cidadãs. Ainda não precisamos voltar para a clandestinidade, mas a repressão policial é dura e temos um Ministro da Justiça que manda bater e prender sem dó, pois foi comandante da truculenta polícia de São Paulo. E hoje temos uma lei antiterrorisimo para combater a cidadania, aquela que pratica a liberdade de ocupar ruas e estradas, prédios públicos, escolas para se manifestar contra o poder que está aí e suas propostas de leis e políticas. Para falar muito sinceramente e com toda clareza, afirmo que estamos manietados, encurralados, sem perspectivas de curto prazo, ao menos, todas e todos que pensamos em radicalização da democracia. Mas resistimos bravamente. Por sinal, os autoritários, alguns até defendendo a ditadura militar, botaram as caras de fora. Tempos difíceis pela frente!

Sei que é um absurdo o que lhe peço: será que tem alguma forma de você nos apontar uma luz nesta confusão? Não é sua responsabilidade e nem é bom quando forças do Além são chamadas ou invocadas para resolver nossos problemas terrestres. Mas, Betinho, por favor, mande um sinal se o pipocar de lutas de resistência a esta onda conservadora podem gestar um futuro diferente e, sobretudo, se o apostar numa nova e poderosa onda de democratização do Estado e da economia é um caminho para a sustentabilidade da vida, de toda vida,  e do pequeno e único Planeta Terra que temos.

Bem, amigo, continuamos lutando e bebendo umas que outras, inspirados em você, um sábio cidadão. Um abraço saudoso e mais uma vez “Feliz Aniversário”.