A favela na moda

Este mês um evento marcará na Cidade de Deus o aniversário de 10 anos do lançamento do filme de Fernando Meirelles que leva o nome da favela. Ao longo desta década, muitos outros filmes sobre favelas e periferias foram para as telonas. O tema também foi parar nas telas menores, abordado em novelas, programas de auditório e jornais na TV, o que demonstra que cada vez mais a favela está na mídia e, a julgar pelas ações do programa Morar Carioca, na pauta do dia.

Para o geógrafo Jaílson de Souza e Silva, fundador do Observatório de Favelas e integrante do grupo de referência do Morar Carioca, a “moda” da mídia em falar da favela está intimamente ligada à ascensão econômica que as classes mais baixas experimentaram no Brasil no século XXI. Ou, em outras palavras, à formação de uma nova classe de consumidores. “Está na ‘moda’ muito mais a  representação de um novo tipo de consumidor do que o reconhecimento de um efetivo cidadão”, afirma.

Jaílson de Souza e Silva. Crédito: Observatório de Favelas.

Isso porque, ainda segundo o professor, neste período as taxas de homicídio no Brasil continuaram crescendo e atingindo  principalmente esta mesma parcela da população, negra e pobre. Segundo o Mapa da Violência, em 2002 morriam, proporcionalmente, 45,2% mais negros do que brancos no Brasil. Em 2010, essa taxa subiu para 82,7%. Jaílson também chama a atenção para o fato de o Brasil ser o quarto país do mundo com maior número de presidiários, que, em sua maioria, também são negros e pobres.

O Brasil e, especificamente, o Rio de Janeiro têm experimentado, sim, uma mudança com relação à forma como se vê a favela e seu morador. Mas, para Jaílson, essa diferença não diz respeito ao reconhecimento dessas pessoas como efetivos sujeitos de direitos. O preconceito contra os moradores de favelas, por exemplo, continua forte, sendo amenizado nos casos onde as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) facilitaram o acesso aos territórios controlados por traficantes de drogas. “O racismo continua sendo um componente fundamental das relações sociais brasileiras. Logo, no cotidiano, o preconceito contra os moradores dos territórios populares não têm diminuído, embora seus espaços venham se tornando mais acessíveis”, comenta.

Existe uma “cultura da favela”?

Acompanhado a essa glamourização vem também um preconceito bem sutil, que pode mesmo ser disfarçado de boa intenção e valorização da população favelada. É o preconceito de acreditar que, na favela, só se produz uma “arte favelada”, só existe uma “cultura favelada”. E o que é, afinal, essa cultura? É possível falar numa só arte favelada? “A arte com adjetivos é sempre um problema. A questão é que se cristalizou a ideia de que as práticas cotidianas, em particular dos grupos rurais e étnicos, é o máximo de cultura que os pobres podem fazer”, responde Jaílson.

Ele acredita que o morador da favela pode produzir arte visual, literatura, música, tanto quanto qualquer outro, sem,  necessariamente, seguir um modelo relacionado ao território em que habita. “O problema é não se reconhecer, nem se oferecer condições de legitimidade para as práticas artísticas dos moradores das periferias. De qualquer forma, cada vez mais, grupos e artistas desses territórios se impõem no cenário contemporâneo, afirmando uma nova centralidade para as periferias, no campo artístico inclusive”. Jaílson conclui sugerindo um caminho: “deve-se criar novos equipamentos e ampliar as condições de formação, produção, difusão e mobilização nesses territórios, estimulando a partilha e o convívio com diferentes tipos de linguagens, de  variados espaços da cidade e do mundo”.