Mobilidade Social e Acesso a Direitos

Ana Redig
Jornalista, editora da revista Trincheiras, do Ibase

Houve melhoria nas condições de vida das pessoas pobres nos últimos dez anos, especialmente no que se refere a oportunidades de emprego e aquisição da casa própria. No entanto, a partir de 2014 a vida tornou-se mais difícil e o receio é que essa piora vá se prolongar. Essa é uma das principais conclusões de uma consulta feita pelo Ibase e pela Action Aid com três grupos focais em abril e maio de 2016 na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, e que integram o projeto-piloto “Mobilidade Social e Acesso a Direitos na Região Metropolitana no Rio de Janeiro”.

Os encontros aconteceram na Cidade de Deus, favela localizada no município do Rio de Janeiro; Jardim Catarina, loteamento pobre de grande densidade populacional no município de São Gonçalo; e Marajoara, bairro periurbano de Japeri, município de menor IDH do estado, localizado na Baixada Fluminense. Foram ouvidos um total de 44 moradores. Cada grupo focal teve cerca de duas horas de duração e contou com a participação de entre 10 e 19 pessoas, em sua grande maioria mulheres, responsáveis por famílias e beneficiárias do Programa Bolsa Família.

O objetivo do projeto é contribuir para a compreensão do processo de mobilidade social na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, reunindo elementos sobre os novos perfis da pobreza e aspirações, considerando as especificidades e trajetórias de mobilidade social e observando o impacto do acesso a serviços públicos sobre a qualidade de vida da população. Os grupos focais abordaram aspectos relacionados à mobilidade social, avaliação sobre a condição de vida atual, comparação com o passado e perspectivas para o futuro, visão sobre o país, crise econômica, aspirações e avaliação sobre serviços públicos (assistência social, educação, habitação, saneamento, saúde, segurança e transportes/ mobilidade).

“De uns dois anos para lá, por exemplo, era fácil você procurar um emprego e conseguir. Agora, a gente bate de porta em porta e é muito difícil. O desenvolvimento da gente parou”. (Morador de Jardim Catarina)

Nesse pessimismo mais recente, o desemprego é a maior ameaça. Diversos foram os depoimentos de participantes que perderam seus empregos e que não conseguem se recolocar no mercado de trabalho. De fato, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RJ), no primeiro trimestre de 2016, a taxa de desocupação das pessoas de 14 anos ou mais foi de 9,2%, superando as do mesmo período em 2015, que foi de 6% e em 2014, de 7,1%. A tendência é equivalente à constatada em nível nacional. Um número elevado de postos de trabalho foram fechados e uma grande quantidade de pessoas passou a procurar trabalho sem conseguir encontrar .

O sentimento generalizado é que a crise chegou para todos e que os mais pobres são os que sentem “na pele”. Todos opinam sobre a crise, atribuindo-a aos políticos, dentro de uma perspectiva que a crise é causada pela corrupção, atribuindo sua responsabilidade aos que estão “lá em cima”, separando do “nós embaixo”. Esta separação indica também o sentimento que não se sentem representados pelos políticos que estão no poder.

“Meu sonho é ter uma casa, também dar uma vida melhor aos meus filhos e conseguir fazer uma ligadura de trompas”. (Moradora da Cidade de Deus)

A preocupação em dar um futuro para os filhos melhor do que a vida tem sido para si próprios também foi uma constante nas consultas. As pessoas reconhecem que há mais oportunidades de estudos atualmente, mas denunciam a má qualidade do ensino que, junto com a violência, são apontados como fatores capazes de interromper a trajetória de seus filhos para uma vida melhor.

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