Nota da rede Diálogo dos Povos sobre a prisão no Zimbábue

Vinte e dois integrantes de uma comitiva da rede internacional de direitos humanos “Diálogo dos Povos” foram presos no Zimbábue no último dia 10. A comitiva fazia uma visita em áreas exploradas pela mineração no país quando os integrantes foram abordados pela polícia local e levados para uma delegacia sob a alegação de invasão de território.

Depois de dois dias presos, todos os integrantes foram liberados mediante o pagamento de multa no valor de U$100,00 e da orientação de que todos se declarassem culpados diante da justiça do país. A comitiva contava com pessoas da África do Sul, Suazilândia, Zâmbia, Quênia, Uganda, Zimbábue e Brasil. Entre os brasileiros presos, havia representantes da  Comissão Pastoral da Terra de Uberlândia (MG), do Movimento pela Soberania Popular na Mineração e membros da secretaria do Comitê em Defesa dos Territórios Frente à Mineração.

Em nota, a Diálogo dos Povos agradece aos parceiros que contribuíram para a rápida liberação e retorno dos integrantes da comitiva e demonstra preocupação com possíveis represálias àqueles que trabalham no Zimbábue na defesa do mais pobres.

O Ibase faz parte do movimento Diálogo dos Povos que tem como objetivo favorecer a criação de espaços de articulação, debate e formulação de propostas comuns a movimentos sociais, redes e organizações que no Brasil e na América Latina resistem à expansão do modelo agro-minero exportador, em diálogo com países da África.

Abaixo, segue a nota oficial da Diálogo dos Povos.

Nota oficial do Diálogo dos Povos sobre as detenções ocorridas em visita ao Zimbábue

8 a 12 de novembro de 2017

 

A rede “Diálogo dos Povos” se sente aliviada por poder informar que os 22 membros da delegação que foi detida sob a acusação de invasão de território no Zimbábue já encontram-se seguros e em casa.

 

Na manhã de hoje, 13 de novembro, todos os integrantes estrangeiros da equipe da Diálogo dos Povos (que contava com representantes da África do Sul, Suazilândia, Zâmbia, Quênia, Uganda, Zimbábue e Brasil) deixaram o Zimbábue. Apenas uma cidadã britânica que é amiga de um membro da equipe do Centro de Gestão dos Recursos Naturais (nosso parceiro e anfitrião no Zimbábue) ainda está sob custódia no país. Sua liberação e deportação devem acontecer no final do dia de hoje. A alegação da prisão é ligada a um problema relacionado ao visto de entrada no país.

 

A delegação estava no Zimbábue como parte de um intercâmbio de missão solidária para conhecer e entender a situação da mineração artesanal e participar das mobilizações em memória do nono aniversário do Massacre de Marange Diamond, na região de Mutare.

 

Nós permanecemos atentos e preocupados com a situação de nossos parceiros no Zimbábue que diariamente encaram a repressão e o assédio que pudemos vivenciar nesta nossa visita ao país. Há ainda a preocupação de como a repercussão internacional da prisão da delegação da Diálogo dos Povos pode refletir e prejudicar a situação dos nossos parceiros no país.

 

Nesse contexto de intensos conflitos sobre a mineração, o objetivo da nossa visita era entender tudo o que envolve as minas artesanais e o quanto este tipo de exploração poderia oferecer como alternativa ao loteamento e saqueamento feito pelas companhias multinacionais de mineração nesses países. Além disso, nosso intercâmbio também tinha o objetivo de conhecer e compartilhar idéias sobre como a mineração artesanal se organiza e como isso tudo pode servir para a nacionalização dos recursos. Nós escolhemos o Zimbábue pois, lá, um milhão de pessoas estão envolvidas na mineração artesanal. No entanto, nossa visita foi severamente interrompida pela intervenção realizada pela polícia e pelo governo local.

 

Diante disso, nós, da Diálogo dos Povos, iremos organizar uma reunião emergencial para avaliar os próximos passos a serem tomados e para considerar como iremos conseguir os recursos necessários para reembolsar as organizações locais e os ativistas que nos apoiaram pagando as multas e os gastos adicionais relacionados à liberação dos delegados e o retorno deles aos seus países de modo rápido e seguro.

 

A Diálogo dos Povos gostaria ainda de agradecer as diversas organizações e também as mobilizações individuais que se uniram para a liberação de nossos camaradas presos. Sobretudo, nós gostaríamos de agradecer a equipe do Centro de Gestão de Recursos Naturais do Zimbábue, a Unidade de Serviço de Aconselhamento, a equipe do advogado PassmoreNyakureba, a organização de Advogados Defensores dos Direitos Humanos no Zimbábue, CIDSE, DKA, secretariado da AMECEA, Campanha TNC, Embaixada Brasileira e Nunciatura Apostólica do Vaticano em Harare, Bispo Monsenhor Paul Horam, a Conferência dos Bispos do Brasil, a Ordem dos Frades Menores, Justiça, Paz e Integridade da criação Franciscana, a Internacional Franciscana, Br. Amaral Bernardo e a OFM Santa Clara Custody em Moçambique.

 

Conclusão:

A situação no Zimbábue permanece tensa e, por isso, a Diálogo dos Povos se mantém atenta em relação ao bem estar e a segurança dos nossos parceiros do Centro de Gestão de Recursos Naturais que resistem e enfrentam o saqueamento dos territórios e o desaparecimento de pessoas pobres por ações ligadas ao setor extrativista.

 

Secretariado da Rede Diálogo dos Povos

Mercia Andrews,

África do Sul