Ibase: um projeto, minha vida

Cândido Grzybowski

Sociólogo, Ibase

As nossas vidas são uma fantástica aventura compartida neste grande comum, o Planeta Terra.  Somos seres vivos dotados de consciência e vontade, com características físicas que não escolhemos mas nos foram dadas como um dom da natureza. Nossa individualidade e vida singular só existem em combinação com as circunstâncias familiares, históricas, sociais, econômicas, políticas, culturais e até territoriais em que somos membros de uma coletividade. Fazemos escolhas, sem dúvida, mas em circunstâncias sobre as quais pouco ou nenhum controle temos. Por isto, é sempre uma experiência única, mas síntese de múltiplas relações e contradições, pois a gente não consegue viver sem se identificar com um “nós” coletivo. O certo é que somos o que somos como parte de uma humanidade interdependente, com direitos e responsabilidades comuns, mas destinos escritos com nossas escolhas ao fazer a nossa parte e viver a vida.

Esta questão tem me ocupado ultimamente, pois passo por uma espécie de revisão interior do que vivi e onde estou, momentos que, creio, todos temos de tempos em tempos. Aliás, tenho uma mania de meditar e, portanto, me auto avaliar desde os tempos do confinamento no seminário capuchinho, dos 12 aos 20 anos de idade. Tenho também ciclos de registro destas minhas meditações e reflexões livres através de diários, que raramente revejo. Para mim, meditar e pensar é ao mesmo tempo escrever, como agora, nesta crônica, espécie de disciplina que me imponho. A reflexão destes dias, com muitas alegrias e angústias interiores, tem sido o meu engajamento no Ibase. Afinal, o que fiz e  por que do que fiz? Como foi que virei diretor e ativista cidadão no Ibase e através do Ibase? Como, ao influir na história do Ibase, fui eu mesmo mudando e sendo transformado? O que hoje significa o Ibase para mim?

Em 1 de março de 1990 entrei no Ibase como diretor de planejamento. Duvidei muito e, até, resisti para deixar o que eu vinha fazendo com grande satisfação pessoal: ser professor e pesquisador no Instituto de Estudos Avançados em Educação, IESAE, da FGV, no Rio de Janeiro, cidade que adotei desde a volta da França, em fins de 1978. Mas o amigo Betinho, com aquele seu jeito de visionário encantador, me seduziu. Conheço o Ibase desde a sua fundação por Betinho, Carlos Afonso e Marcos Arruda, após a volta deles do exílio. Aproximei-me do Ibase por causa do Betinho, uma espécie de guru para mim e minha geração, 10 anos mais jovem. Tive a maravilhosa oportunidade de compartir muitas análises de conjuntura da década de 1980, da insurgência democrática por assim dizer, com Betinho e o seu verdadeiro “bando” de intelectuais e ativistas da cidadania, que ele conseguia reunir. Agora, entrar no Ibase e assumi-lo também como um projeto meu foi outra coisa.

O desafio foi grande, pois o Ibase, como organização de cidadania ativa, era muito anárquico e eu um sujeito treinado, desde a adolescência, no seminário, a agir com compromisso, criatividade e competência, mas dentro de métodos e regras. Além disto, combino uma formação básica em filosofia, na graduação pós seminário – que me inspira até hoje, mas me faz duro nos valores e princípios -, com métodos de planejamento num mestrado em educação na PUC-Rio e um doutorado e pós-doutorado em sociologia do desenvolvimento na França e Inglaterra, quando as universidades ainda não estavam submetidas à lógica do mercado. Carrego isto como um dom que a vida prodigamente me deu e do qual me orgulho. Porém, organizar o Ibase e levar o projeto adiante foi um desafio monumental, que o diga a minha fiel assistente desde aquele começo nos 90, a Antônia Rodrigues. Mas foi um tal engajamento que o amigo e cúmplice de sonhos e lutas, o Betinho, me propôs e no qual mergulhei de cabeça desde então.

O Betinho me convenceu a assumir o desafio de dar continuidade ao projeto Ibase no contexto em que ele já tinha perdido os irmãos Henfil e Chico Mário e, ele mesmo, estava contaminado pela AIDS. Porém, tive o privilégio e a felicidade de conviver cotidianamente com o companheiro Betinho por pouco mais de sete anos, até o seu falecimento em 11/08/1997. Não vou conseguir ser fiel a tudo em que fui envolvido, sob a sua inspiração. Antes até de entrar no Ibase, fui envolvido na Campanha Pela Reforma Agrária e tudo o que se fez de Iniciativas Populares para a Constituinte. Ao entrar, participei do grande e inspirador evento “Terra e Democracia”, em setembro de 1991, no Parque do Flamengo. No mesmo ano, participei da organização e realização da Conferência “Desenvolvimento, Cooperação Internacional e ONGs”, seguida da criação da ABONG – Associação Brasileira de ONGs. Em 1992, tivemos a Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, na qual o Ibase teve ativa participação, além de ser o facilitador do acesso das organizações e movimentos da sociedade civil brasileira e internacional à Internet através do Alternex, o primeiro provedor civil da América Latina. O Ibase da década de 90 do soculo passado fui uma ativa organização de todas as conferências organizadas pela ONU e de todo o processo de negociação que levou à fundação da OMC, bem como das iniciativas de participação em redes e fóruns da sociedade civil nas negociações multilaterais em torno ao BM, FMI, BID e à proposta da ALCA. Enfrentamos a globalização neoliberal desde o seu nascedouro.

Da década dos 90, o que mais fincou profundas raízes dentro de mim e acabou abrindo um fecundo campo de reflexão sobre democracia radical e cidadania, no Ibase, foi a Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida, animada pelo Betinho. Até hoje a “Campanha contra a Fome”, como ficou conhecida, é uma referência para mim e no que penso deve ser um Projeto Ibase sempre renovado diante das conjunturas que não controlamos. Afinal, o Ibase nasceu e cresceu como uma proposta de incidir com dados e argumentos de qualidade no debate público e mobilizar a cidadania para enfrentar as exclusões, injustiças, desigualdades e destruições ambientais. O ideário do Ibase tem como referência política e cultural os princípios e valores democráticos da liberdade, igualdade, diversidade, solidariedade e participação, contra todas as formas de dominação, exclusão e desigualdades presentes nas relações sociais, processos e estruturas de poder e economia. Sua prioridade é se articular e agir com movimentos e organizações de cidadania ativa, sempre com a perspectiva de contribuir na construção de uma sociedade radicalmente democrática, justa e sustentável.

Foi neste “caldo” político que orientei o Ibase, já sem o Betinho, a apostar radicalmente na ideia do Fórum Social Mundial. Foi minha principal atividade como diretor de 2000 a 2012. De um ponto de vista pessoal, mas como ativista e dirigente do Ibase, o FSM foi meu maior desafio. Por causa do FSM e através dele, mas baseado no Ibase, me tornei um cidadão do mundo. No meu modo de ver e avaliar, o maior desafio para a transformação democrática do que temos como economia e poder capitalista hoje no mundo, com autoritarismo, patriarcalismo, colonialismo, racismo, xenofobia e intolerância, é criar e animar movimentos de cidadania planetária. Isto tem o Ibase e o FSM como inspiração. Mas o FSM, como iniciativa, deixou de ser uma resposta possível, por nossa própria falta de ousadia e incapacidade de renová-lo diante dos novos desafios. De toda forma, devo, reconheço, uma sistematização crítica do que fiz e pensei sobre tal aventura cidadã de dimensões planetárias. Tenho uma 500 páginas escritas a respeito, desde dentro, como participante e organizador. Sinto-me no dever de “cavar” tempo e dedicar esforço (“cadeira+bunda+hora, a tal equação incontornável do trabalho de ativistas pensadores, que sempre lembrei a meus alunos de mestrado e depois no Ibase) para devolver à cidadania ativa mundial algo pensado e organizado sobre aquilo que penso o FSM significou.

No processo mais recente, como projeto pessoal e do Ibase ao mesmo tempo, ousei na proposta e experimentação de um Sistema de Indicadores de Cidadania (SIC), baseado no conjunto de direitos humanos – civis e políticos, direitos econômicos, sociais e culturais e direitos comuns. O SIC foi testado nos 14 municípios da Área de Influência do Comperj, no Rio de Janeiro, entre 2012 e 2016, graças a um estratégico convênio com o setor de Responsabilidade Social da Petrobras. Com a proposta do SIC, busca-se um modo de se auto avaliar e, no processo, de se empoderar a cidadania ativa na luta por direitos e políticas democráticas a partir dos territórios em que ela vive. Hoje, o Ibase está dotado de uma poderosa ferramenta, um método de incidência, que radicaliza a sua proposta de cidadania ativa na construção da democracia. Afinal, trata-se de fortalecer a cidadania como força instituinte e constituinte de democracia através de sua ativa participação. Ao mesmo tempo, os indicadores de cidadania são um modo de ver politicamente qualificado, baseado em direitos de cidadania, diante de outros indicadores de qualidade de vida, muito contaminados pela centralidade que atribuem ao PIB e ao crescimento da economia.

Minha intenção com esta crônica é mostrar alguns aspectos de como tem sido e como foi gratificante para mim mesmo a trajetória no Ibase. Mais do que dirigir, eu fui feito e me fiz um ator pensante sobre cidadania e os desafios da democracia no Ibase e pelo Ibase. Nestes dias deixo, finalmente, a direção. Mas não estou deixando o Ibase como projeto e nem como engajamento pessoal. Minha vida continua atrelada ao Ibase e aos desafios que tem diante de si. Serei um entre tantos. Posso garantir que continuarei dando o melhor de mim para que o Ibase seja aquilo que, de forma renovada diante do que a conjuntura nacional e mundial impõem, exige a sua missão de organização de cidadania ativa, radicalmente democrática. Ou seja, minha vida incorporou no seu DNA o projeto Ibase. Tenho mais que agradecer a colegas, associados e parceiros de jornada nestes 27 anos, todas e todos que em mim confiaram e confiam, apoiaram e com cumplicidade criticaram. Com inspiração renovada, ousadia e determinação, a partir do Ibase, estou junto na trincheira democrática que a conjuntura exige. Outro Brasil e Outro Mundo são possíveis! Para isto, o Ibase ainda é uma pulga necessária com suas incômodas mordidas de cidadania.

 

Rio, 03/04/2017.