Geopolítica das barreiras que nos separam

Cândido Grzybowski

Sociólogo, do Ibase

Com a notícia de falecimento do Helmut Kohl, chanceler da reunificação alemã a partir da queda do Muro de Berlim, em 1989, estive pensando nas muitas barreiras que nos separaram como povos e como humanidade ao longo da história. Até hoje continuamos inventando novas fronteiras reais e imaginárias, muros, valas e cercas, separando-nos. O discurso sempre é por questões de segurança. Na verdade, sempre é de defesa de interesses e privilégios nada legítimos. Como a história demonstra, trata-se de um vão esforço de conter, limitar e até impedir a livre circulação de gente pelo Planeta Terra, bem comum da humanidade inteira, por excelência. Não aprendemos que todos os tipos de barreiras acabam caindo mais dia, menos dia. Mas quanto sofrimento e morte causam para quem se dispõem a enfrentá-las!

Estive pela primeira vez em Berlim em 1987, para participar de um debate sobre o significado da liberalização das políticas agrícolas (as negociações da Rodada do Uruguai do GATT, que levou à criação da OMC nos anos 90) sobre a bem sucedida PAC – Política Agrícola Comum. O famoso e agressivo muro estava de pé, ziguezagueando pelo centro da cidade e encurralando a parte Oeste, querendo separar o que nasceu unido. Como brasileiro, nem visto precisei para visitar a Berlim Leste, coisa quase impossível para cidadãos de Berlim Oeste. São lembranças fortes. Graças à coragem e determinação do líder Gorbachev, da URSS de então, criou-se a possibilidade de acabar com esta chaga viva da II Guerra Mundial, criada com a derrota de Hitler e do nazismo em 1945. Depois disto, estive muitas vezes em Berlim e acompanhei o difícil mas animador processo de unificação da Alemanha que se seguiu à queda do muro. Estive lá em 2014, na celebração dos 25 anos da queda. Emocionante celebração.

Mas por que inventamos barreiras que nos separam tão radicalmente? Defesa de privilégios conquistados e contestados, sempre de classe, manutenção do poder em nome de nacionalismos excludentes e de interesses econômicos e territoriais, a intolerância com os diferentes da gente, os racismos e fundamentalismos, tudo isto junto ou em parte está sempre na origem das barreiras. E como somos inventivos nos tipos e formas de criá-las!

Muralha da China, hoje uma maravilha para ser admirada, é algo tão grande que pode ser vista de satélite girando em volta da terra, como astronautas testemunharam. Ela se tornou parte da identidade cultural da China atual. Em termos geopolíticos, ela foi feita em nome da defesa, como proteção em relação ao exterior do império chinês de então. Em todo caso, é algo que merece ser visitado, pensando na ousadia e determinação de construir algo assim com os meios então disponíveis, causando tanto sofrimento para o próprio povo.

Da China passo para a Linha Maginot, verdadeira fortificação de fronteira construída no pós I Guerra Mundial pela França. Não serviu para nada, pois os generais de Hitler a transpuseram facilmente e chegaram a Paris, levando a França a uma vergonhosa rendição no início da II Guerra Mundial. A linha Maginot destruída deu lugar ao Muro de Berlim numa Europa em início do processo de unificação, formando o mercado comum europeu.

Mas na velha e colonialista Europa existem muitos castelos, fortalezas, para nobres se protegerem e defenderem seus privilégios do próprio povo ou de outros nobres de olho nos seus latifúndios e servos. Existe forma mais incrível de barreira do que as que separam em classes sociais? Muitos castelos da nobreza, além de todos serem imponentes e com altas muralhas de defesa, tinham profundas valas cheias de água no entorno. Outros foram construídos em lugares estratégicos no alto de montanhas. Dentro dos muros ou na volta dos castelos se formaram as primeiras aglomerações urbanas, de soldados e serviçais. No modelo dos castelos, temos mais recentemente os bunkers nos subterrâneos dos palácios atuais, especialmente dos ditadores, que continuam se multiplicando pelo mundo.

A colonização moderna gerou muitos enclaves nos territórios conquistados, com diferentes formas de separação entre os conquistadores e os nativos, além de dar origem à escravidão, racismo e toda forma de exclusão, chagas que todas as ex-colônias têm no seu seio, sofrendo para erradicar. Lembro aqui a guerra entre Buenos Aires e os povos indígenas do pampa argentino. Invadida e queimada várias vezes, Buenos Aires se tornou uma rica cidade, grande porto exportador de commodities, capital da Argentina desde a independência em 1808. Para chegar a isto teve que inventar um exército nacional cuja guerra principal foi contra indígenas no século XIX. Até uma enorme e extensa vala foi construída no Pampa, num grande círculo, centenas de quilômetros distante da cidade, como forma de enfrentar os rebeldes povos originários.

Israel e Palestina convivem com barreiras de diferentes tipos. Este é um processo vivo, cada vez mais cruel, mortífero. A anexação de territórios e o controle das águas do rio Jordão, além da resistência corajosa dos palestinos, estão no centro de um conflito aberto hoje sem saída visível. Ao lado, a guerra civil na Síria e as várias guerras em curso no interior dos países do Oriente Médio mostram que muralhas têm origem em guerras e carnificinas, mas são móveis. A consolidação de fronteiras entre países sempre são pactos provisórios se tivermos uma mirada histórica mais larga.

Os EUA, que se dizem paladinos da liberdade, construíram uma grande muralha na fronteira com o México, para dificultar a migração. A proposta do Trump é completar tal muralha e fazer os mexicanos pagarem pela obra! E o que dizer das novas muralhas contra migrantes na Europa? A mais evidente é aquela enorme cerca entre Ceuta (cidade autônoma da Espanha no Norte da África) e Marrocos, tudo num vão esforço de conter as migrações de africanos para a Europa. Também se tentam acordos e barreiras para a entrada na Europa dos indesejados do Oriente Médio e África, em geral fugindo da miséria e guerras, das quais os europeus têm grande responsabilidade. Devido a barreiras de todo tipo, multiplicam-se os acampamentos provisórios de migrantes e refugiados, verdadeiras cidades de barracas, muitas já de décadas, nas fronteiras, especialmente dos países da União Europeia. Intolerância, racismo e nacionalismo estreito explicam as barreiras. O fundamentalismo e o engajamento de jovens em lutas suicidas são a resposta que cresce entre as comunidades de migrantes que se sentem excluídos e sem futuro.

O fato é que a invenção de Estados Nacionais desenhado pelo Tratado de Westfália, de 1648, atendeu à ascensão das burguesias como nova classe dominante. Eles criaram uma ideia de identidade nacional adequada a seus interesses de territórios de negócios protegidos. Isto explica a origem mais moderna das barreiras. O incrível é que as fronteiras, como fortificações para se proteger legalmente de “estrangeiros” transformaram rios – bens comuns integradores. Nós temos o caso emblemático até hoje dos povos Guaranis, cujo território histórico foi a terra do mate, na volta do rio Paraná e afluentes. Hoje estamos divididos em vários países. Até fizemos uma guerra entre nós – a Guerra do Paraguai –, impondo o quase extermínio do Paraguai como povo, tudo em nome de nos defender das pretensões indígenas guaranis, encampadas por Solano Lopes, de recuperar o seu grande território original.

Concluo lembrando as barreiras e cercas em nossas grandes cidades brasileiras, no geral um muro que divide e segrega, de conhecimento público, mas sem muros reais em geral. São a divisão entre favela e asfalto ou entre cidade e periferia, no geral divisões que separam classes sociais e com muito racismo e exclusão social permeando tudo. É uma reprodução em grande escala da matriz original de Casa Grande e Senzala. É duro admitir que muros podem ter várias formas, inclusive imaginárias, mas segregam, discriminam, negam direitos, mesmo se a vida nos fazer conviver com tais divisões diariamente. Até quando?

Rio de Janeiro, 18/06/17